Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

O Santo que foi em jejum para a Batalha de Aljubarrota

Nuno Álvares Pereira é canonizado este domingo no Vaticano
 

O Santo que foi em jejum para a Batalha de Aljubarrota
Nuno Álvares Pereira demorou 600 anos a ser canonizado, mas, olhando para a sua história, com uma espiritualidade única, não se entende a demora do processo. Era preciso um milagre? Mas quantos terão ficado por avaliar nos séculos passados?

O Santo que foi em jejum para a Batalha de Aljubarrota
Nuno Álvares Pereira demorou 600 anos a ser canonizado, mas, olhando para a sua história, com uma espiritualidade única, não se entende a demora do processo. Era preciso um milagre? Mas quantos terão ficado por avaliar nos séculos passados? Nuno Álvares Pereira todos os dias ouvia duas missas, confessava-se frequentemente e comungava quatro vezes por ano. Diariamente, rezava as suas Horas, levantando-se pontualmente para rezar Matinas à meia-noite. Jejuava às quartas-feiras, sextas e sábados e nada o demovia. Até no dia das batalhas de Aljubarrota e dos Atoleiros, que ocorreram na Vigília de Nossa Senhora da Assunção e numa Quarta-Feira Santa foi em jejum defrontar os espanhóis. No livro "S. Nuno de Santa Maria", recentemente editado pela Zéfiro para assinalar a canonização de Nuno Álvares Pereira, é apresentada a mais completa colectânea de textos sobre a vida interior do Beato que se vai tornar Santo no próximo domingo, numa cerimónia que tem lugar no Vaticano. Pinharanda Gomes é o responsável pela selecção de textos e autor da cronologia fundamental de D. Nuno, também publicada no livro. Entretanto, esta semana, a Guimarães Editora também reeditou "A Vida de Nun' Álvares", de Oliveira Martins.

Olha-se para a história de Nuno Álvares Pereira e não se percebe como é que o Condestável do reino, unha com carne com D. João I, demorou seiscentos anos a ser canonizado. Em 1433, dois anos após a sua morte, já são evidentes os sinais da vontade régia de Nuno Álvares Pereira ser canonizado, tanto a nível da Corte como a nível popular, que nele reconhecia "o Santinho" ou "o Conde Santo". Nesta data também eram já frequentes as romarias ao Convento do Carmo, chegando a pintarem-se e esculpirem--se as primeiras imagens, algumas delas com aureóla, significando que era santo e não apenas beato. Em 1431, D. Duarte, que anos antes já tinha feito um sermão para pregar na festa do Condestável, escreve uma carta a D. Fr. Gomes, beneditino, abade do Mosteiro da sua ordem em Florença, solicitando empenho no processo de canonização. Era Papa Eugénio IV. Mas o rei não foi bem sucedido. Só 200 anos mais tarde o processo havia de ser retomado. Fr. José Alencastro, vigário-geral da ordem do Carmo, apresentou um pedido ao regente D. Pedro para que intercedesse junto da Santa Sé para a canonização de Nuno Álvares Pereira. O Papa era Clemente X mas parece não ter havido, da parte de Portugal, decisivo empenho. Em 1894, a causa foi retomada pelo Cardeal-Patriarca D. José Sebastião Neto no pontificado de Leão XIII, mas uma vez mais sem sucesso. Em 1914, sendo Papa Pio X, o patriarca D. António Mendes Belo entregou em Roma um novo processo diocesano, demonstrando a existência de um culto imemorial e contínuo ao Santo Condestável. Antes de falecer, Pio X aumentou, por decreto, as formalidades requeridas para o reconhecimento da antiguidade do culto. Porém, atendendo aos pedidos do Episcopado português, a Santa Sé dispensou o processo de Nuno Álvares dos novos requisitos. Em 1917, pouco depois das aparições de Fátima, o processo de Nuno Álvares Pereira foi apresentado na Congregação dos Ritos e votada por unanimidade. Em Janeiro de 1918, o Papa Bento XV ratificou a sentença da Congregação dos Ritos. Um mês depois o patriarca D. António Mendes Belo dá conta, em nota pastoral, da beatificação de Nuno Álvares Pereira. Em 1940, o cardeal Cerejeira faz uma Súplica ao Papa Pio XII pela canonização do Santo Condestável. Apesar de faltar a confirmação documental, é voz corrente que Pio XII se dispôs a canonizar por equipolência mas os canais diplomáticos não funcionaram adequadamente, pelo que se volveu ao formalismo e à exigência dos milagres. Em 7 de Março de 2008, o Papa Bento XVI autorizou a publicação de dois Decretos: um, reconhecendo as virtudes heróicas do Condestável; outro, atestando a cura milagrosa da senhora Guilhermina de Jesus, residente em Vila Franca de Xira, que perdera a visão do olho esquerdo num acidente, quando fritava peixe e foi atingida por salpicos de óleo a ferver, sem que por via médica obtivesse cura. Em 21 de Fevereiro de 2009 o Papa Bento XVI anunciou a canonização de Nuno Álvares Pereira para o dia 26 de Abril, o próximo domingo, no Vaticano. O cardeal D. José Saraiva Martins, Prefeito da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos teve um papel essencial na condução de todo o processo, resignando ao lugar logo a seguir à aprovação dos decretos de 7 de Março. O SEMANÁRIO publica alguns extractos da selecção de textos do livro editado pela Zéfiro, de Alexandre Gabriel e Sofia Vaz Ribeiro. "Desde o início, Nuno encarava a Revolução Nacional como uma obra de Deus. Por espírito de Deus, disse ele, veio-me o pensamento de que a defesa do reino não pertencia a outrem, nem o devia nem o podia fazer, senão o Mestre de Avis. Em Santarém, ao ouvir as primeiras notícias sobre os acontecimentos que se desenrolaram em Lisboa, observou aos irmãos que isto era obra de Deus, que se queria lembrar de Portugal; que o Mestre agira bem ao vingar a desonra do irmão e ao pôr-se a defender o Reino, que os seus Avós com grande trabalho conquistaram, pois Portugal sempre fora um reino independente. Este pensamento continuou a guiar Nun' Álvares na sua árdua empresa, como mostra a Batalha dos Atoleiros. Esta batalha foi dupla: contra a desconfiança dos seus e contra os Castelhanos, lembra aos seus comandados que toda a vitória vem de Deus só, não dos homens. Não se cansa em repetir que, com a ajuda de Deus, há-de vencer. E na hora decisiva não apenas para ele, senão para Portugal todo, exortou: que se encomendassem a Deus e à Virgem Maria sua Mãe Concretização deste pensamento é o seu célebre estandarte, que representa por duas vezes Jesus e a sua Mãe virginal, além de S. João, S. Jorge e S. Tiago. Pois vendo como, não somente nas grandes coisas mas ainda nas muito pequenas, devemos sempre demandar ajuda daquele Senhor, sem o qual nenhuma coisa pode haver bom começo nem fim, propôs em sua alma haver Deus por seguidor principal de seus feitos. E onde são maiores os perigos, ali convém mais devota lembrança daquele Senhor de quem todo o auxilio o homem espera. Em Aljubarrota, antes que amanhecesse, começou a ouvir suas missas, e naquela tenda onde ele estava, clérigos davam o Santo Sacramento a quantos comungar queriam. Pouco antes da batalha chegaram-lhe alguns parlamentários, entre eles seu irmão Diogo, e por duas vezes observou-lhes: sois mais numerosos e melhor preparados, maior porém é o poder de Deus e a sua ajuda. Não sei se sois hereges ou infiéis, mas sei que o vosso rei faria melhor em tirar-se da excomunhão. E durante todo esse dia conservou-se em jejum, por ser a vigília de Santa Maria d'Agosto. Impressionante, quase lendária, é a sua atitude em Valverde: Nuno a rezar, escondido entre penhascos, no mais aceso da luta, quando as suas hostes estavam na iminência de uma derrota fatal. Mesmo informado do perigo, pelos que angustiados o encontraram, terminou calmamente as suas orações. Ainda não chegara a sua hora. Mas quando se levantou, era outra vez o guerreiro destemido e sempre vencedor. Mas disse mal, não era outra vez o guerreiro, pois não o deixara de ser quando estava a rezar. Nuno era diferente de nós, que assim o julgamos. Criado e crescido no serviço de Deus, nele interpenetravam-se o natural e o sobrenatural, ou mais exactamente: toda a sua actuação natural era aperfeiçoada e elevada pelo sobrenatural. Vivia na presença de Deus em todos os momentos e circunstâncias. Os seus afazeres e obrigações de estado não o afastavam de Deus - cumpria-as, olhos fitos em Deus." (Manuel Maria Wermers, O. Carm.) "Todos os dias ouvia duas missas e três nos sábados e domingos (...) confessava-se amiúde e comungava quatro vezes por ano: pelo Natal, Páscoa, Pentecostes e Santa Maria de Agosto, o que se admirava muito, visto os leigos, então, quase só comungarem pela Quaresma. Diariamente, rezava as suas Horas, levantando-se pontualmente a rezar Matinas à meia-noite, como se fosse um religioso; e isto enquanto viveu no mundo. Jejuava às quartas-feiras, sextas e sábados, e guardava todas as festas e dias prescritos pela igreja. Do jejum nunca se dispensava mesmo que viesse a cair nos dias em que havia de dar batalha. Este exercício de mortificação observou com o rigor costumado nos dias em que se travaram as batalhas dos Atoleiros e Aljubarrota, pois esta ocorreu na Vigília de Nossa Senhora da Assunção, 14 de Agosto de 1385, e aquela na Quarta-Feira Santa, 16 de Abril de 1384." J. Vaz de Carvalho, S. J. Logo a seguir à Batalha de Aljubarrota o Santo Condestável pôs mãos à obra de tributar à Senhora a sua homenagem. Tal facto de o Beato Nuno ter começado a planear uma tão grandiosa obra em honra de Maria levou a crer a vários autores que o mosteiro de Santa Maria tivesse resultado de um voto feito durante a Batalha de Aljubarrota ou Valverde. Crê-se, porém, mais plausível a opinião de Pereira de Sant'Anna que refere que a fundação não provinha de um determinado favor, senão das múltiplas mercês que a Virgem lhe havia concedido em várias ocasiões. O beato Nuno deve ter sentido muitas vezes a mão protectora da Virgem a quem tão ternamente amava. Nada mais tolerável que, vivendo a Pátria em paz, pensasse em retribuir à Senhora os favores recebidos. Em 1386, decorrido um ano após Aljubarrota, já estava alcançada licença do monarca e do Pontífice Urbano VI para a fundação do mosteiro. Foi lançada a primeira pedra em Julho de 1389. O imenso trabalho dos alicerces prolongou-se até ao ano de 1397 devido à fraca consistência do terreno e só em 1407 eram possíveis os primeiros actos cultuais no templo, não havendo por agora acomodação no edifício do claustro para os frades. Pela bula de 1386 do Papa Urbano VI vê-se que o Condestável não havia ainda determinado os moradores do convento, ou não tinha ainda, pelo menos, tornado pública a sua decisão. Quando cerca de 1392, escreveu ao vigário-geral dos carmelitas de Moura convidando-os a tomar conta do seu mosteiro, fala de conversas havidas já anteriormente a esse respeito. Pelo menos no ano de 1392 não era segredo para o vigário-geral que o convento de Lisboa era destinado aos Carmelitas. Que o Condestável desde o início havia pensado nos Carmelitas não no-lo diz a História. Todavia compreende-se que teria feito questão para o templo da Santa Maria, sua homenagem à Mãe de Deus, ser entregue a quem reconhecia os mais devotados à Virgem. (...) Ao entrar o portal do Mosteiro de Santa Maria do Carmo, onde acabou os seus dias, outra coisa não tinha além da samarra de pano que vestia, e vestia sempre até que Deus o levou". O desapego atingia o auge. Longe do mundo podia agora sem peias entregar-se a Deus e à Santa Virgem. Nuno de Santa Maria era o seu nome, porque quis ser filho devotado da sua Santíssima Mãe. Já de idade avançada e tendo sempre sido o general a quem todos e tudo se curvava, podemos compreender a ígnea espada, animava-o a usar contra si as armas do espírito de que fala o capítulo XV da Regra. Não dava tréguas à própria natureza; não era ele um incansável militante de Cristo? Os pobres, que o rodeavam à porta do convento, constituíam a sua felicidade, pois via neles a imagem do Senhor. Não são do Senhor as palavras de "aquilo que fizerdes a um dos mais pequeninos a mim o fazeis"? Já no mundo se tinha dedicado a esta virtude da perfeição cristã: a caridade. Não seria perfeito religioso se o não fosse cristão, ele o sabia; daí a sua ânsia da prática do bem para os outros, a quem amava como ao próprio Jesus. A si mesmo não poupava; não lhe bastava a humílima condição que levava no mosteiro. O mundo também devia saber que o grande Condestável era uma aragem de glorioso passado. Saiu a esmolar pelas ruas, pedindo a caridade de um pedaço de pão e um copo de água. Quem havia de reconhecer, neste frade mendigo, o herói de Atoleiros. Aljubarrota e Valverde? À espiritualidade Carmelita, a essa sim, devia aplicar-se com todas as forças da alma. Não lhe bastava a solidão do convento e o silêncio da sua cela; construiu na cerca do mosteiro uma pequena ermida em honra da Mãe de Deus onde, horas a fio, meditava em doces colóquios com os seus amigos. Era uma alma profundamente Carmelita, imbuída do espírito da Ordem. O essencial para o monge carmelita é a união com o Senhor, por meio de Sua Mãe. B. Nuno compreendeu-o perfeita e completamente. Na sua pobre cela apenas quis a imagem de Cristo crucificado. As paredes eram nuas: só se viam nelas uns cilícios e disciplinas. Na ermida do claustro do convento conservava uma imagem da Virgem da Assunção; e nada mais... Passava longas horas diante do Santíssimo Sacramento a rezar, sempre a rezar... Buscando contacto com o Criador em cuja presença devia viver, conforme disse, "como pedra no seu centro". Nove anos passou dentro de paredes do convento preparando-se para o derradeiro combate. Não conseguiu, no entanto, aquilo que era sua tenção: ser esquecido pelo mundo! Mas sucedeu o contrário: a sua fama de santidade passava irradiante para fora dos muros do mosteiro e, através dos séculos, chegou até nós."

 

in Semanário

publicado por portuga-coruche às 14:32
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