Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

"Os que cá estavam, não quiseram mais gente"

José Andrade, proprietário, ex-presidente da CAP, 58 anos
 
"Nunca tive ideia de apanhar uma coisa que não era minha". O senhor João, 77 anos, trabalha desde sempre para a família Andrade. Nascido e criado na Quinta da Azervada, em Coruche, o senhor João, enxada na mão, trata da terra. Não é sua, mas é como se fosse. "Tenho amor a isto". Não quer que lhe tirem esta rotina. No tempo das ocupações, ainda o quiseram pôr à frente da gestão da propriedade que foi a única na margem esquerda do Rio Sorraia a não ser ocupada.

Alexandra  Machado
amachado@negocios.pt

 

"Nunca tive ideia de apanhar uma coisa que não era minha". O senhor João, 77 anos, trabalha desde sempre para a família Andrade. Nascido e criado na Quinta da Azervada, em Coruche, o senhor João, enxada na mão, trata da terra. Não é sua, mas é como se fosse. "Tenho amor a isto". Não quer que lhe tirem esta rotina. No tempo das ocupações, ainda o quiseram pôr à frente da gestão da propriedade que foi a única na margem esquerda do Rio Sorraia a não ser ocupada.

"Esta propriedade era praticamente toda de vinha e tinha trabalhadores permanentes, que tinham assegurado o seu trabalho". José Andrade, dono da Quinta da Azervada de Cima, tinha 24 anos. Recém--licenciado em engenharia agrónoma, sabia o valor da liberdade conquistada pelo 25 de Abril. Mas, a demissão de Spínola [Setembro de 1974] mudou o rumo dos acontecimentos e fê-lo militar no PSD. "A reforma agrária já não tem a ver com o 25 de Abril, mas com a tomada de poder [por parte do PCP]".

Aquelas casas, que albergam, agora, turismo rural, estavam, em 1974, habitadas. E sabe-se por quem. O adegueiro, o abegão, o boieiro, o lavrador... os trabalhos perduram no nome das casas. Na adega, cenário hoje para outros repastos, produzia-se vinho, e as vendas até beneficiaram com o período conturbado das ocupações, lembra José Andrade - que mais tarde foi deputado na Assembleia da República, no I Governo Constitucional, e presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal - que acabou por ir morar para a Quinta durante esse período. A Quinta da Azervada de Cima não foi ocupada, mas houve tentativas. Uma comissão de trabalhadores e uma manifestação não foram suficientes.

Como lembra Joaquim Canejo, que pertenceu ao Sindicato dos Operários Agrários, chegou-se a acordo: A família não despediu trabalhadores e a terra estava a produzir. José Andrade tem outra explicação. "Os sindicatos quiseram pôr pessoal de fora, mas os trabalhadores daqui não deixaram. Os que cá estavam não quiseram mais gente. Os próprios trabalhadores resistiram à dinâmica dos sindicatos de porem cá mais gente. Não houve interferência do proprietário". A justificação? Não havia "a dinâmica latifundiária". Trabalhadores e patrões, diz, colaboravam e havia afectividade. Mais uma vez o exemplo do senhor João, que ainda hoje vive na Quinta - dividida em 1956 pelo avô e tio-avô de José Andrade através de um processo simples de traçar ao meio a propriedade num mapa com uma régua.

Aguentar a Quinta da Azervada nem sempre foi fácil. As contas bancárias da família foram congeladas. Mas a produção de vinho e a solidariedade permitiu que os salários fossem sempre pagos. "Cumprimos sempre tudo. E conseguimos fazer, mesmo com as contas congeladas, porque houve pessoas solidárias connosco".

Ocupação da Sousa da Sé levou proprietários para Caxias

Também é à solidariedade que José Andrade atribui a libertação da prisão de Caxias. Com o pai e com o irmão, foram presos durante a ocupação de outra propriedade da família - a Sousa da Sé, em Évora -, que fica para a história pela "confrontação armada entre trabalhadores e um grupo de 12 elementos afectos aos proprietários" (segundo uma notícia do "Primeiro de Janeiro", citada em trabalhados publicados por António Barreto sobre a reforma agrária.
Foi essa ocupação que levou o ministro da Agricultura, Lopes Cardoso, e Álvaro Cunhal a um jantar na Sousa da Sé, depois da ocupação, para levar apoio aos trabalhadores. A Unidade Colectiva de Produção 15 de Junho (data da ocupação) foi criada. A família foi presa em Caxias. "Foi violento", lembra José Andrade, que, com a família, foi cercado. A rendição foi com bandeirinha branca, mas Caxias foi o destino.

Aí ficaram três dias e "a nossa prisão gerou um grande movimento de resistência". Ao ponto de haver uma manifestação em Santarém, na qual - segundo o relato de José Andrade - se gritou pela primeira vez "O povo não está com o MFA [Movimento das Forças Armadas]". Certo é que três dias depois, a família recebia ordem de libertação, onde se justificava: "Por não se ter provado pertencerem a uma associação de malfeitores".

José Andrade guarda, ainda hoje, esse documento. A Sousa da Sé, essa, estava perdida para os ocupantes. A propriedade fora comprada pelo pai José Manuel Andrade, que aí vivia, para desenvolver o sonho de ter uma ganadaria. Nos 900 hectares, dois trabalhadores permanentes tratavam de uma cabeça de gado por hectare. "Foi o investimento da vida do meu pai", que só viria a recuperar a herdade em 1986. "A casa estava alterada e até destruída. Já não havia gado", lembra José Andrade. Hoje, a Sousa da Sé já não está na família. Foi vendida e aí a Pelicano, de Jaime Antunes, pretende fazer um empreendimento turístico.


 

in Jornal de Negócios

 

 

publicado por portuga-coruche às 11:34
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Joaquim Canejo

O carro andou 525 mil quilómetros a trabalhar para a reforma agrária

 
 
Um busto de Lenine testemunha a conversa. Joaquim Canejo é um homem do Couço, freguesia de Coruche, por várias vezes chamada (pelos fascistas, diz) de "Pequeno Moscovo". Nenhum outro partido ganha eleições. O Partido Comunista Português (PCP) continua de pedra e cal.

Jornal de Negócios  Online
negocios@negocios.pt
 
Um busto de Lenine testemunha a conversa. Joaquim Canejo é um homem do Couço, freguesia de Coruche, por várias vezes chamada (pelos fascistas, diz) de "Pequeno Moscovo". Nenhum outro partido ganha eleições. O Partido Comunista Português (PCP) continua de pedra e cal.

"Ainda tem de morrer mais uma série de velhos para eu poder ser presidente". A citação é atribuída por Joaquim Canejo a um candidato do PS (derrotado) à Junta de Freguesia do Couço. Mas para este militante, falta aos mais jovens a dureza da ditadura para terem o espírito de comunidade. Afinal é isso que o comunismo significa. Ri-se em reacção à pergunta se era do PCP. A sua história acaba por responder à dúvida. Joaquim Canejo trabalhou sempre no campo e, durante muitos anos, foi seareiro. Trabalhava de sol a sol. Ganhava-se 20 escudos por dia, durante seis dias por semana.

O 25 de Abril ouviu-o pelo rádio que levava para a seara. "Estivemos a apreciar aquilo tudo pelo rádio", conta, recordando como antes escondia o "Avante!" no meio dos queijos ou como albergava clandestinos em sua casa. O pós-25 de Abril acabou por o levar às lutas pelos direitos dos trabalhadores. Primeiro no Sindicato dos Operários Agrários, onde ajudou a inscrever cerca de oito mil trabalhadores, e depois no Comité da Reforma Agrária. A partir do Couço ajudou nas ocupações das terras. 

"Os grandes agrários começaram a vender o gado e a tirar as máquinas. Aí houve, então, a grande necessidade de deitar a mão à terra para se produzir". Explica a reforma agrária pela necessidade. As terras não estavam a produzir e os trabalhadores precisavam de emprego. Na altura de reversão, a situação, segundo Joaquim Canejo, era diferente. "Quando tomaram conta das terras [os proprietários], estava tudo a produzir". Aí resistiu-se. Foram forçados a sair das terras pela polícia. Joaquim Canejo fala de repressão na saída, mas de passividade nas ocupações em Coruche. Das suas recordações, que parecem frescas, sugere que a primeira ocupação no concelho foi a Herdade do Peso, entre as Brotas e o Ciborro.

"Foram os trabalhadores que ao verem-se lá desprezados vieram aqui ao Couço ter com a gente. Falou-se com a tropa e foi-se lá". Na terra só estava o feitor. "Torceu-se", mas nada havia a fazer. Outra memória leva-o à Herdade dos Pensais. "Estava completamente abandonada" e, por isso, "as senhoras ficaram contentes de a gente ter ocupado aquilo". "A gente foi lá, limpámos aquilo, pusemos a escola a trabalhar, e puséramos lá casais. Essas pessoas, dentro da herdade, foram as que mais produziram". Agora, "há anos que não produz". É com tristeza que diz ver tanta terra improdutiva. "Se sair daqui para fora, só encontra arames e caça".

As histórias vão-se desfiando como um rolo de linha. Joaquim Canejo pertenceu ao Comité da Reforma Agrária e era, muitas vezes, chamado para ajudar. "Era ali que iam discutir os seus problemas". Mas, ele, Canejo, "nunca estive a trabalhar em herdade nenhuma. Nem recebi dinheiro das herdades. O meu trabalho foi gratuito". Tinha uns dinheiritos guardados. À causa pôs, ainda, ao serviço o seu carro. "Andou 525 mil quilómetros a trabalhar para o sindicato e para a reforma agrária".

Durante a reforma agrária começou a nascer a Cooperativa "A Conquista do Povo", no Couço, onde ainda hoje dorme. "Durmo aqui dentro há 36 anos". Para impedir a "gatunagem" de roubar o que lá está dentro. Não tem medo? "Não tenho medo nenhum. Sempre vivi no campo, dormi muito tempo lá na charneca, ao relento". À Cooperativa - que chegou a ter dois mil sócios - dá todo o seu tempo. As obras começaram a 6 de Setembro de 76. "Toda a gente veio ajudar". Evoluiu-se "e chegou aqui a estar em grande". Tinha produção de carnes que a ASAE pôs fim. De resto, "vende-se tudo".

"O meu papel é ver isto a trabalhar". Não quer outro. "Fiz sempre muitas coisas pelo bem deste povo. Fiz o meu trabalho". Não quer glórias. Com humildade, diz que sempre tentou ajudar e "explicar às pessoas que era preciso produzir para colher". E sai para ir atender os cooperantes. O busto de Lenine, esse, continua a testemunhar uma vida dedicada causa.
 
In Jornal de Negócios
publicado por portuga-coruche às 11:06
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