Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

O Natal tem destas coisas (5 anos depois, o mesmo)

Era uma vez um rapaz, Joaquim Carreira de 10 anos, que vivia com mais 8 irmãos, em meados da década de 50, numa casa humilde para os lados da Batalha, Leiria.

Ao contrário dos outros irmãos, Joaquim Carreira, sofria de uma deficiência, em que deformara os seus frágeis membros esquerdos. Ao mesmo tempo que os irmãos iam crescendo normalmente, Joaquim cada vez mais ressentia dificuldades com o andar. Os pais, que infelizmente não tinham dinheiro para curar o seu filho, limitavam-se a vê-lo a habituar com a ideia de ser diferente dos outros.

Joaquim, não era um miúdo qualquer, tinha uma imensa força, tanto física como psicológica. Depressa conseguiu arranjar o seu tempo. O gado da família era por sua conta. Ainda hoje se conta na aldeia, as suas caminhadas de mais de 10 quilómetros num só dia com os animais.

Pouco tempo passa e as coisas complicavam-se ainda mais. Joaquim, perdera muito cedo a sua mãe. Com isso, teve que deixar a escola e trabalhar a tempo inteiro. Um trabalho pequeno aqui, outro ali. Com o seu braço esquerdo sem força, e uma perna quase sem movimentos, ia fazendo os seus possíveis.

Os anos vão passando e a família separa-se pouco a pouco. Alguns irmãos tentam ir para a capital, outros para Brasil, França, Alemanha. Joaquim, por sua vez ia ficando cada vez mais só. Ora passava uns meses na casa de um irmão, ora outros na casa de outro.

Certa altura, surgiu uma uma ideia de ir para um lar em Coruche, com a finalidade de conseguir ter um bom acompanhamento. E assim foi, Joaquim já com 40 e poucos anos, fora para o lar em Coruche.
Recordo muito bem, como se fosse hoje. Ainda não andava na escola e, cada vez que ia da minha terra, Algarve, para a terra natal do meu pai, Leiria. Coruche era paragem obrigatória.
Muito novo encarei o Joaquim, meu tio, de forma estranha. Tendo eu, na altura como passatempos, a televisão ou jogar a bola com os amigos. Ver o meu tio num lar de idosos em que por exemplo, tinha de partilhar o quarto com mais um idoso, que mais cedo ou mais tarde, acabaria por morrer, metiam-me imensa confusão.

Então o modo em que passava o seu tempo era incrível. Um dia normal, para ele, era ouvir rádio, corridinho de preferência, e ver os idosos a jogar as cartas. Tudo o que acontecia fora do lar, aparte das historias da sua terra e da família, passava-lhe completamente ao lado.
O seu crescimento parecia que tinha parado com a doença. Uma televisão, por exemplo, ja lhe metia confusão. Dava-me a sensação que vivia um passado presente, mas genuíno ao mesmo tempo.
Poucos eram os Natais que a família o trazia para as suas casas. Normalmente, era a família que ia ao encontro do Joaquim. O lar ja se tornava também a sua família, pelo qual todos os natais faziam grandes festas.

E tudo passava dentro do normal, até que um dia recebi uma notícia que me chocou bastante. Joaquim tinha de ficar sem uma perna devido aos diabetes. A sua perna deformada obrigava agora a que nunca pudesse andar. A sua volta matinal pela herdade do lar já não poderia ser feita como antigamente.
Incrivelmente os seus familiares que, acabaram de brigar entre si, juntaram-se em solidariedade com o Joaquim e compraram-lhe uma cadeira de rodas eléctrica.

Mais tarde, já no fim da década de 90, os diabetes de Joaquim, voltaram a fazer das suas. A sua outra perna, a sempre sã, também tinha de ser cortada. Nessa altura o seu andar, que era uma das suas poucas relíquias, teria de ser deixado para trás.
Então, as idas ao lar de Coruche já era uma obrigação para mim.
O seu olhar doce e o seu sorriso maroto já não era o mesmo. Após ter ficado sem pernas, Joaquim passara para sala de doentes, que tinha de partilhar com mais 5 idosos, pois era a unica sala do res-do-chão do lar. Os gritos de dor por parte desses mesmos idosos, provocavam-me imensa confusão. Por vezes até arrepios e, só me aptecia era saír dali. Mesmo assim, compensava imenso ir lá, pois era um mar de felicidade para ele. Até dava sempre uma volta pela herdade, querendo mostrar os seus dotes de condução na cadeira eléctrica aos familiares. Parecia uma criança com o seu brinquedo favorito.

Mesmo assim, o tempo não perdoa. No passado natal, tinha la ido, por acaso o vi bastante bem. Foi a última recordação dele vivo, que guardo na memória. Mas passado uns dias, precisamente a 4 de Fevereiro, meu dia de aniversário por coincidência, meu dia que fizera 21 anos (2005), morrera Joaquim.

Hoje ainda olho para a única recordação que tenho, com estima. Um barrete que eu tinha oferecido no último Natal. Segundo as funcionárias do lar, ele não largara um segundo que seja, pois era do seu sobrinho que gostava muito. Pouco tempo antes de morrer, fez questão que esse mesmo barrete me fosse entregue. Pena não ter sido usado muitas vezes…

Embora a morte tenho sido anunciada algum tempo antes, foi o fúneral que mais me sensabilizou até hoje. Não por haver imensa gente, não porque o tio que gostava imenso morrera, mas por aquilo que viveu.

Pena não poder ter feito nada mais.
A vida é mesmo assim e tem destas coisas...

Francisco Miguel Sousa
2010 - 5 anos depois do mesmo post.
O Natal não faz esquecer os mais queridos

 

Por: Francisco Miguel Sousa

in Leadership

 

Encontrei este texto no Blog acima referido e não resisti a postar aqui.

 

 

publicado por portuga-coruche às 07:05
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