Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Solange F. “Gostava de ter um ‘talk show’ gay”

O rosto da rebeldia do formato ‘Curto Circuito’ quer quebrar tabus e gosta de pôr as pessoas à prova

Que balanço faz destes quatro anos a apresentar o ‘Curto Circuito’?

Tenho entrevistado pessoas de todo o tipo e conhecido gente de várias áreas. O facto de o programa ser transmitido em directo é uma grande aprendizagem e não gostaria que fosse de outra forma. Contudo, acho que teria a mesma espontaneidade se fosse gravado (provavelmente era censurada mais vezes...). Mas uma das coisas mais importantes para mim é o facto de o programa me permitir ouvir as opiniões dos outros e aprender a respeitá-las. Lembro-me que quando debatemos o tema do aborto comecei por dizer que era contra e, no final, depois de ouvir vários telespectadores, comecei a pensar de outra forma. Só espero que isso não aconteça só comigo.

Qual tem sido o ‘feedback’ dos jovens que assistem ao programa?

Eles encaram-nos como um grupo de amigos. O programa não é apenas um espaço onde se partilha opiniões mas também desabafos. Eles sabem que nos podem contar tudo sem o risco de serem criticados. E depois há aquela palhaçada toda com a qual não se aprende nada...

Mudava alguma coisa no formato?

Sim. Já teve várias alterações e vai continuar a adaptar-se aos interesses do público. Na minha opinião, acho que o programa podia ter uma componente lúdica mais interactiva, em que os jovens pudessem ganhar prémios. Além disso, gostava que eles também pudessem estar em estúdio para debater os temas. O ideal seria ter duas pessoas com opiniões diferentes.

Desde o início, a Solange tem sido o rosto da irreverência do ‘Curto Circuito’...

Não é defeito, é feitio. Desde miúda que sou contestatária e reclamo sempre quando os meus direitos não são respeitados. Por isso gosto quando o programa aborda temas polémicos, pois posso colocar as pessoas à prova. O facto de estas perceberem que existem outras opiniões e que estas devem ser respeitadas já é um passo à frente para mudar mentalidades.

Gosta de provocar?

Eu provoco naturalmente. A verdade é que nem gosto muito de dar nas vistas (é claro que este cabelo não ajuda!). Gosto, sobretudo, de pessoas que me excitam a nível intelectual, que tenham ideias diferentes.

A representação continua em ‘stand by’?

Infelizmente, sim. Mas também tenho muito pouco tempo. Estou a tirar o curso de Psicologia Clínica de manhã e à tarde tenho o programa. É claro que gostava de voltar ao teatro e encontraria certamente energias para subir aos palcos todas as noites, mas a verdade é que não tem havido oportunidades.

Gostava, por exemplo, de participar numa próxima telenovela?

Como é que hei-de responder de uma forma politicamente correcta?... Nunca se diz 'desta água não beberei'. Contudo, essa não é propriamente a minha ‘praia’. Depende do projecto.

E de apresentar um programa só seu?

Já tive várias ideias de programas mas a verdade é que sou preguiçosa de mais para apresentar um projecto. Gostava de ter um programa à semelhança dos que são transmitidos no Pink TV, o canal francês dedicado à comunidade homossexual. A ideia era ter um espaço assumidamente gay mas não exclusivamente gay. Um talk show, com entrevistas, discussão de temas e divulgações de eventos, até porque os gay gostam de determinados tipos de roupa, marcas, música e literatura. Também me lembrei de fazer um programa do género do ‘Curto Circuito’ mas onde se falasse de sexo para um público mais novo. A maioria das pessoas julga que existe muita informação nesta matéria e os jovens estão muito esclarecidos mas isso não é verdade.

Ou seja, dois temas tabu. Acredita que o facto de ter assumido em público a sua homossexualidade vai ajudar a mudar as mentalidades dos portugueses?

Nunca pensei nisso até agora. Tenho recebido um ‘feedback’ muito positivo e sei, pelas mensagens que recebo, que a minha revelação ajudou muitas pessoas de maneiras diferentes. Se calhar temos de começar com estes pequenos passos. Na minha opinião, os pais deviam falar mais sobre este tema com uma certa normalidade, de forma a perceberem que ser gay não é uma opção mas uma orientação. Daí que este tipo de programas sejam importantes. Talvez o Nuno Santos se lembre de criar um espaço inovador na SIC Radical.

Acredita que a mudança deve começar no seio familiar?

Claro que sim. Conheço muitos casos de jovens que não assumem a sua homossexualidade por causa da família. Conheço outros que, ao fazerem-no, foram expulsos de casa. É horrível ter de esconder a sua verdadeira identidade, de não ter o direito a ser livre e feliz só porque muita gente é homofóbica sem saber porquê. As pessoas têm de tirar esse peso de cima e dizer: 'O meu filho é gay. E depois? Deixem lá o miúdo em paz!'

 

HOMOSSEXUALIDADE HÁ MUITO QUE ESTAVA ASSUMIDA: REVELAÇÃO POLÉMICA

Solange F. assumiu publicamente a sua homossexualidade numa reportagem especial do semanário ‘Expresso’ em que participavam outras mulheres. Ela, porém, era a única figura pública. 'Sou lésbica. E depois?', diz a apresentadora de ‘Curto Circuito’. 'Não fiz esta revelação por mim, pois há muito que assumi a minha homossexualidade. A única diferença é que agora as pessoas que não conheço de lado nenhum também sabem. Se choquei alguém não o fiz gratuitamente. Apenas espero que isto possa ajudar alguém ou fazer ver as coisas de uma forma diferente.'

 

PERFIL: ACTRIZ DE TEATRO

A apresentadora de ‘Curto Circuito’ nasceu a 28 de Dezembro de 1976 em Lisboa. Tem o curso superior de Actor e estuda Psicologia Clínica. Aos 20 anos estreou-se nos palcos da Cornucópia, pela mão de Luís Miguel Cintra. Os palcos continuam a ser a sua paixão.

 

Sónia Dias

 

in Correio da Manhã online

publicado por portuga-coruche às 15:18
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Sexta-feira, 21 de Março de 2008

Apresentadora da SIC assume homossexualidade

 

Activistas gay dizem que revelação vai contribuir para melhorar situação dos jovens homossexuais portugueses

 

Solange F., de 31 anos, apresentadora do programa da SIC Radical ‘Curto-Circuito’, assumiu publicamente, no Expresso on-line, que é homossexual. "Sou lésbica, e então?", revela quem pretende, ao expor a sua orientação sexual, sair em defesa de raparigas lésbicas expulsas de casa pelos pais. A sua decisão, caso raro entre figuras públicas em Portugal, é encarada como um gesto de grande coragem entre os dirigentes de associações que lutam em defesa dos direitos dos homossexuais.

António Serzedelo, presidente da Opus Gay, confessa que 'é de se tirar o chapéu a esta mulher coragem'. As suas afirmações 'vêm romper com a pouca visibilidade que as lésbicas ainda possuem na sociedade portuguesa'.
Por sua vez, a dirigente da associação Tangas Lésbicas, Marita Ferreira, reconhece que as mulheres homossexuais não se expõem tanto como os homens, pelo que 'é muito positiva a atitude de Solange'. 'Por ser uma mulher bonita, vem também colocar em causa o preconceito de que as lésbicas são feias e gostam de mulheres porque os homens não as querem. É uma humilhação que nos tentam impor e que o rosto de Solange vem provar não ser verdade'.
Marita Ferreira sublinha que, por Solange F. apresentar um programa para jovens, as suas afirmações são mais relevantes. 'Fazer frente aos pais e família é sempre muito complicado, sobretudo numa fase da vida em que por serem menores não têm autonomia económica. Ao serem expulsos de casa, se não contarem com a solidariedade de amigos, correm o risco de viver na rua', disse.
A dirigente das Tangas Lésbicas critica o Estado por esses pais não serem penalizados ao tomarem esta atitude. 'Expulsar um filho de casa é um crime. E quantos são os pais que são penalizados por isso?', interroga. Sérgio Vitorino, porta-voz dos Panteras Rosa, adianta que 'este é também um problema de muitos rapazes, que por assumirem que são gays conhecem a rua como destino e vivem sem o apoio de ninguém, entregues à sua própria sorte'.
Solange F. sublinha que 'ninguém tem o direito de julgar seja quem for'. E, acrescenta, em entrevista ao semanário ‘Expresso’: 'Ainda assim, há muitas raparigas que conheço que foram expulsas de casa por dizerem que são homossexuais'. 'É de uma grande violência quando um pai perde o amor por um filho', diz.
A rede de apoio a jovens Ex Aequo confirmou aoCM casos de violência que atingem menores de 14 e 15 anos, por vezes vítimas de agressões físicas e que, contudo, preferem poupar os pais a uma denúncia na polícia. Um jovem que trabalha na associação, e que preferiu manter o anonimato, disse que numa primeira fase ajudam os menores a tentarem uma conciliação com os pais, mas em casos mais complicados aconselham a Linha de Emergência para a Criança (número 213 433 333).
A associação Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBT) revela que a discriminação apresenta níveis muito elevados. No relatório ‘A Exclusão Social da Juventude Lésbica, Gay, Bissexual e Transexual na Europa’ da IGLYO/ILGA Europa – no qual participaram também jovens portugueses –, os números revelam a dimensão da discriminação. Em mais de 700 questionários respondidos em 37 países europeus, verificaram-se níveis muito elevados de discriminação e preconceito: 61,2 por cento enfrenta discriminação na escola, 51,2 na vida familiar e 29,8 no seu círculo de amigos. Por isto, Paulo Corte Real, da direcção da ILGA, concorda que a revelação de Solange F. ajuda a luta contínua contra discriminação.
SOLANGE F. ROMPEU COM UMA 'POSTURA DÚBIA'
'As pessoas têm de sorrir para a vida. Não têm de se preocupar com a discriminação, nem com o levantar o dedo', diz Solange F. quando confrontada com a possibilidade de ser discriminada na sua vida profissional e pessoal com a 'sua abertura ao Mundo', forma com classifica ter assumido a homossexualidade. Nascida a 28 de Dezembro de 1976, em Lisboa, e com o curso Superior de Actor, Solange confessa na sua página da internet www.solangef.next-designs.net que, embora seja actriz, entende que 'o seu currículo é demasiado ‘virgem’ para se proclamar actriz'. Conhecida do grande público como apresentadora de televisão, a jovem de 31 anos confessa que 'havia pessoas que desconfiavam que sim e outras achavam que não era lésbica. Isto por assumir uma postura que não era fechada mas dúbia'. Num conselho a outros homossexuais, diz que 'devem seguir o seu coração' e acredita que numa sociedade correcta não seria preciso falar da sexualidade de cada um.
PREPARADA PARA TUDO 
'Não sei a reacção que as pessoas irão ter. Possivelmente vão dizer: ‘Grande maluca!’ Não sei. Não estou à espera de nenhuma reacção positiva ou negativa. Simplesmente sei que vou lidar com as coisas de frente, quer se trate de uma reacção ou da outra', garante Solange F.
EXEMPLO CONTRA HOMOFOBIA
Luís Rodrigues, advogado de Teresa e Helena, duas mulheres que pretendem casar-se, diz que palavras de Solange F. vêm combater a homofobia.
REACÇÕES 
REVELAÇÃO AJUDA NA LUTA
Para Paulo Corte Real, da ILGA, revelação de Solange é muito positiva na luta contra discriminação sexual.
JOVENS CAEM NA RUA
Sérgio Vitorino, das Panteras Rosas, diz que muitos jovens são postos na rua pelos pais por assumirem ser gays.
ATITUDE DE GRANDE CORAGEM
António Serzedelo, da Opus Gay, entende que assumir ser lésbica é gesto de grande coragem.
GAYS COM MESMOS DIREITOS LABORAIS
Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa, que detém, entre outros, a SIC e o semanário ‘Expresso’, ficou na história como o primeiro patrão de um grupo de média português a dar uma licença de casamento a um dos seus funcionários numa união homossexual, no caso Nuno Graça Dias, pivô da SIC Notícias. O gesto valeu ao empresário um prémio atribuída pela associação de gays e lésbicas ILGA.
Pinto Balsemão soube do casamento do jornalista, que se realizou em Toronto, Canadá, em Março de 2007, e intercedeu junto do departamento de Recursos Humanos da SIC para que o pivô gozasse da licença, apesar da legislação portuguesa não permitir a união entre pessoas do mesmo sexo.
Nuno Graça Dias usufruiu de 15 dias (11 dias úteis) de licença e, à semelhança do que acontece nos casamentos heterossexuais, não sofreu descontos no ordenado.
A atitude de Pinto Balsemão valeu ao empresário o prémio Arco-Íris, entregue pela ILGA Portugal em Novembro de 2007. A distinção foi atribuída pelos 'contributos para uma democracia mais aberta, inclusiva e verdadeira, baseada na valorização da diversidade e na igualdade de direitos', referiu na altura a associação.
A boa vontade de Pinto Balsemão não é comum à maior parte dos empresários. Há milhares de homossexuais que não têm idênticas regalias. António Serzedelo, da Opus Gay, estima em 5,5 por cento o total de trabalhadores portugueses que são homossexuais, baseando-se na percentagem verificada no Reino Unido.
FIGURAS DO ENTRETENIMENTO QUE ASSUMIRAM A HOMOSSEXUALIDADE


JODIE FOSTER

Famosa desde a pré-adolescência, a actriz foi apontada ao longo dos anos como uma das figuras gay de Hollywood mesmo tendo dois filhos. Só assumiu publicamente a orientação sexual em Dezembro de 2007. Após receber um prémio destinado às mulheres da indústria do entretenimento, fez um discurso emocionado onde agradeceu à companheira pelos 14 anos de vida em comum.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


ADRIANA CALCANHOTTO
Menos interessada em revelar a intimidade, a cantora brasileira conta histórias cheias de sentido para as fãs homossexuais nos seus concertos. Já recordou quando ouvia a canção ‘Devolva-me’, mais tarde um dos seus êxitos, escondida do pai no quarto da empregada. 'Se ele implicava com a música, imagine então o que aconteceria se ele me pegasse com a empregada', gracejou.

 

 

 

 

 

 

 

 



ELLEN DEGENERES

 

A actriz norte-americana não fez por menos e 'saiu do armário', em Abril de 1997, numa célebre capa da revista, ‘Time’. 'Sim, sou gay', foi o título que pôs termo a qualquer dúvida. Exactamente ao mesmo tempo, a mulher que interpretava numa série assumiu ser lésbica, tornando-se a primeira personagem principal homossexual na televisão norte-americana.

João Saramago

 

 

in Correio da Manhã online

Inseri as últimas fotos para ilustrar melhor as referidas artistas.

publicado por portuga-coruche às 13:41
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