Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Apelo do Dr. Rath às pessoas da Alemanha, da Europa e de todo mundo

 

Berlim 13.03.2012

 

 

 

publicado por portuga-coruche às 07:00
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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

Porque silenciam a ISLÂNDIA?

 

(Portugal está neste estado lamentável por causa da corrupção interna – pública e privada com incidência no sector bancário – e pelos juros usurários que a Banca Europeia nos cobra.
Sócrates foi dizer à Sra. Merkle – a chanceler do Euro – que já tínhamos tapado os buracos das fraudes e que, se fosse preciso, nos punha a pão e água para pagar os juros ao valor que ela quisesse.
Por isso, acho que era altura de falar na Islândia, na forma como este país deu a volta à bancarrota, e porque não interessa a certa gente que se fale dele)
 

Não é impunemente que não se fala da Islândia (o primeiro país a ir à bancarrota com a crise financeira) e na forma como este pequeno país perdido no meio do mar, deu a volta à crise.
Ao poder económico mundial, e especialmente o Europeu, tão proteccionista do sector bancário, não interessa dar notícias de quem lhes bateu o pé e não alinhou nas imposições usurárias que o FMI lhe impôs para a ajudar.

Em 2007 a Islândia entrou na bancarrota por causa do seu endividamento excessivo e pela falência do seu maior Banco que, como todos os outros, se afogou num oceano de crédito mal parado. Exactamente os mesmo motivos que tombaram com a Grécia, a Irlanda e Portugal.
A Islândia é uma ilha isolada com cerca de 320 mil habitantes, e que durante muitos anos viveu acima das suas possibilidades graças a estas “macaquices” bancárias, e que a guindaram falaciosamente ao 13º no ranking dos países com melhor nível de vida (numa altura em que Portugal detinha o 40º lugar).

País novo, ainda não integrado na UE, independente desde 1944, foi desde então governado pelo Partido Progressista (PP), que se perpetuou no poder até levar o país à miséria.
Aflito pelas consequências da corrupção com que durante muitos anos conviveu, o PP tratou de correr ao FMI em busca de ajuda. Claro que a usura deste organismo não teve comiseração, e a tal “ajuda” ir-se-ia traduzir em empréstimos a juros elevadíssimos (começariam nos 5,5% e daí para cima), que, feitas as contas por alto, se traduziam num empenhamento das famílias islandesas por 30 anos, durante os quais teriam de pagar uma média de 350 Euros / mês ao FMI. Parte desta ajuda seria para “tapar” o buraco do principal Banco islandês.

Perante tal situação, o país mexeu-se, apareceram movimentos cívicos despojados dos velhos políticos corruptos, com uma ideia base muito simples: os custos das falências bancárias não poderiam ser pagos pelos cidadãos, mas sim pelos accionistas dos Bancos e seus credores. E todos aqueles que assumiram investimentos financeiros de risco, deviam agora aguentar com os seus próprios prejuízos.
O descontentamento foi tal que o Governo foi obrigado a efectuar um referendo, tendo os islandeses, com uma maioria de 93%, recusado a assumir os custos da má gestão bancária e a pactuar com as imposições avaras do FMI.

Num instante, os movimentos cívicos forçaram a queda do Governo e a realização de novas eleições.
Foi assim que em 25 de Abril (esta data tem mística) de 2009, a Islândia foi a eleições e recusou votar em partidos que albergassem a velha, caduca e corrupta classe política que os tinha levado àquele estado de penúria. Um partido renovado (Aliança Social Democrata) ganhou as eleições, e conjuntamente com o Movimento Verde de Esquerda, formaram uma coligação que lhes garantiu 34 dos 63 deputados da Assembleia). O partido do poder (PP) perdeu em toda a linha.

Daqui saiu um Governo totalmente renovado, com um programa muito objectivo: aprovar uma nova Constituição, acabar com a economia especulativa em favor de outra produtiva e exportadora, e tratar de ingressar na UE e no Euro logo que o país estivesse em condições de o fazer, pois numa fase daquelas, ter moeda própria (coroa finlandesa) e ter o poder de a desvalorizar para implementar as exportações, era fundamental.
Foi assim que se iniciaram as reformas de fundo no país, com o inevitável aumento de impostos, amparado por uma reforma fiscal severa. Os cortes na despesa foram inevitáveis, mas houve o cuidado de não “estragar” os serviços públicos tendo-se o cuidado de separar o que o era de facto, de outro tipo de serviços que haviam sido criados ao longo dos anos apenas para serem amamentados pelo Estado.

As negociações com o FMI foram duras, mas os islandeses não cederam, e conseguiram os tais empréstimos que necessitavam a um juro máximo de 3,3% a pagar nos tais 30 anos. O FMI não tugiu nem mugiu. Sabia que teria de ser assim, ou então a Islândia seguiria sozinha e, atendendo às suas características, poderia transformar-se num exemplo mundial de como sair da crise sem estender a mão à Banca internacional. Um exemplo perigoso demais.
Graças a esta política de não pactuar com os interesses descabidos do neo-liberalismo instalado na Banca, e de não pactuar com o formato do actual capitalismo (estado de selvajaria pura) a Islândia conseguiu, aliada a uma política interna onde os islandeses faziam sacrifícios, mas sabiam porque os faziam e onde ia parar o dinheiro dos seus sacrifícios, sair da recessão já no 3º Trimestre de 2010.

 


O Governo islandês (comandado por uma senhora de 66 anos) prossegue a sua caminhada, tendo conseguido sair da bancarrota e preparando-se para dias melhores. Os cidadãos estão com o Governo porque este não lhes mentiu, cumpriu com o que o referendo dos 93% lhe tinha ordenado, e os islandeses hoje sabem que não estão a sustentar os corruptos banqueiros do seu país nem a cobrir as fraudes com que durante anos acumularam fortunas monstruosas. Sabem também que deram uma lição à máfia bancária europeia e mundial, pagando-lhes o juro justo pelo que pediram, e não alinhando em especulações. Sabem ainda que o Governo está a trabalhar para eles, cidadãos, e aquilo que é sector público necessário à manutenção de uma assistência e segurança social básica, não foi tocado.

 

Os islandeses sabem para onde vai cada cêntimo dos seus impostos.

Não tardarão meia dúzia de anos, que a Islândia retome o seu lugar nos países mais desenvolvidos do mundo.

O actual Governo Islandês, não faz jogadas nas costas dos seus cidadãos. Está a cumprir, de A a Z, com as promessas que fez.
Se isto servir para esclarecer uma única pessoa que seja deste pobre país aqui plantado no fundo da Europa, que por cá anda sem eira nem beira ao sabor dos acordos milionários que os seus governantes acertam com o capital internacional, e onde os seus cidadãos passam fome para que as contas dos corruptos se encham até abarrotar, já posso dar por bem empregue o tempo que levei a escrever este artigo.

 

Por Francisco Gouveia, Eng.º

 

 

in TemDias

 

 

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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Há alternativas a esta Europa austeritária?

 

O documento tem um título provocatório: “Manifesto dos Economistas Aterrados, crise e dívida na Europa, 10 falsas evidências para sair do impasse” (Actual Editora, 2011). Apresenta-se como um antídoto crítico face ao discurso prevalecente dos economistas convencionais, isto é, daqueles que repetem até à exaustão não haver alternativas à austeridade e por isso recomendam a erosão dos serviços públicos, a redução das prestações sociais e dos salários e uma maior indiferença pelos direitos laborais. É o manifesto em que se contesta esta centralidade do capitalismo financeiro nas economias e que levou à aliança entre accionistas e gestores de topo à custa de maiores sacrifícios para a generalidade dos trabalhadores. Escrevem as prefaciadoras: “Colocar os problemas da economia portuguesa no contexto de uma integração europeia disfuncional e de uma economia financeirizada é uma forma de indicar a urgência de abandonar o comportamento de bom aluno e de recusar as imposições do sistema financeiro e do governo alemão e a política de austeridade que lhe está associada. Uma auditoria à dívida pública do país seria um primeiro passo para saber quem detém os títulos nacionais e em que condições. Só assim se poderá saber quem está a ganhar com o processo de transferência de rendimentos das classes populares para o sistema financeiro”.

Vejamos com algum pormenor a contra-argumentação e as desmontagens das falácias destes “economistas aterrados”.

 

Primeiro, os mercados financeiros não são eficientes, muito ao contrário do que diz o G20. A crise encarregou-se de demonstrar a sua ineficiência. A teoria da eficiência assenta na ideia de que os investidores procuram (e encontram a informação mais fiável, a partir daí a concorrência estabelece preços justos. Na verdade, a concorrência financeira é muitas vezes desestabilizadora e conduz a evoluções de preços excessivas e irracionais. Sendo pois estes mercados ineficientes e instáveis, há que os enquadrar, proibir os bancos de especular por conta própria, limitar as transacções financeiras às necessidades da economia real.

 

Segundo, está longe de ser verdade que os mercados financeiros favorecem o crescimento económico. Assistimos a um poder desmesurado dos accionistas que impõem uma nova concepção da empresa e da sua gestão. Os dirigentes das empresas cotadas em Bolsa passaram a ter como missão primordial satisfazer o desejo de enriquecimento dos accionistas. O manifesto avança com medidas para superar os efeitos negativos que os mercados financeiros exercem sobre a actividade económica: por exemplo, aumentar fortemente os impostos sobre salários muito elevados, de modo a dissuadir a corrida a rendimentos insustentáveis.

 

Terceiro, está longe de ser verdade que as agências de notação financeira avaliem objectivamente as finanças públicas. Como escrevem os “economistas aterrados”, um título financeiro é um direito sobre rendimentos futuros: para o avaliar é necessário prever o que será o futuro. Nas salas de mercado, as coisas são o que os operadores imaginam o que venha a ser. O preço de um activo financeiro resulta de uma avaliação, nada assegura que a avaliação dos mercados tenha alguma espécie de superioridade sobre outras formas de avaliação”. Para contrariar este autoritarismo, as agências de notação financeira não devem estar autorizadas a influenciar, de forma arbitrária, as taxas de juro dos mercados de dívida pública.

 

Quarto, a subida das dívidas públicas não é só resultado de um excesso de despesas, depende da quebra das receitas públicas e esta decorre da falta de crescimento económico: com a contra-revolução fiscal iremos sempre de recessão em recessão. Importa instaurar um debate público, pelo que se propõe efectuar uma auditoria das dívidas soberanas, de modo a determinar a sua origem.

 

Quinto, é duvidoso que a redução das despesas diminua, por si só, a dívida pública. A dinâmica da dívida depende de vários factores como seja a diferença entre a taxa de juro e a taxa de crescimento nominal da economia. E para evitar que o reequilibro das finanças públicas provoque um desastre social e político, são propostas medidas de protecção social e de aumento do esforço orçamental em matéria de educação e até de investimento na reconversão ecológica e ambiental.

 

Sexto, é falacioso dizer-se que a dívida pública transfere o custo dos nossos excessos para as gerações futuras. O aumento da dívida pública na Europa é o resultado de uma política que favorece as camadas sociais privilegiadas. Para corrigir de forma equitativa as finanças públicas, propõe-se, entre outras medidas, que se atribua de novo um carácter fortemente redistributivo à fiscalidade directa sobre os rendimentos.

 

Sétimo, não é a estabilidade dos mercados financeiros que vai garantir o financiamento da dívida pública. O sector financeiro aumentou substancialmente a sua influência sobre a economia: as grandes empresas recorrem cada vez menos ao crédito bancário e cada vez mais aos mercados financeiros. Os bancos centrais já não podem financiar directamente os estados, devem encontrar quem lhes conceda empréstimos nos mercados financeiro. Para resolver o problema da dívida pública, os autores do manifesto sugerem que se autorize o Banco Central Europeu a financiar directamente os Estados e que se restruture a dívida pública, limitando, por exemplo, o seu peso a determinado valor percentual do PIB.

 

Oitavo, a União Europeia não tem primado pela defesa de um modelo social. A visão hoje dominante em Bruxelas é de uma Europa liberal assente na desregulação da economia e com mais concorrência nos mercados de bens e serviços e diminuição da importância dos serviços públicos. Por isso é sugerido como medida que se substitua a política de concorrência por uma política de “harmonização e prosperidade”, fundamentada em grandes orientações de política social.

 

Nono, é uma falsa evidência que o Euro seja um permanente escudo de protecção contra a crise. Depois da crise financeira que começou nos Estados Unidos, a Europa não soube empenhar-se numa política suficientemente reactiva. A Comissão Europeia aprovou procedimentos contra os países em défice excessivo, obrigando os Estados a regressarem, até 2013 e 2014, a valores percentuais de défice inferior a 3 %. A manterem-se políticas salariais restritivas, regressão sistemática dos sistemas públicos (com destaque para a saúde e educação) corre-se o risco da Europa mergulhar na depressão e ao agravamento de tensões entre os diferentes países. A medida que pode obviar esta situação passa por assegurar uma verdadeira coordenação das políticas macroeconómicas e à redução concertada dos desequilíbrios comerciais entre os países europeus.

 

Décimo, está por provar que a crise grega permita avançar para um governo económico de uma verdadeira solidariedade europeia. Acima de tudo, a crise grega ajudou a erguer uma cortina de fumo sobre as origens de crise financeira. Estamos a assistir a um endurecimento do PEC (pacto de estabilidade e crescimento), esta estratégia de choque traz imediatamente proveito aos apologistas da agenda neoliberal. Porém a diminuição das despesas públicas vai comprometer o esforço necessário para assegurar despesas futuras indispensáveis, como é o caso da investigação na economia verde. A medida mais consentânea será de desenvolver uma verdadeira fiscalidade europeia e um verdadeiro orçamento europeu.

 

É isto o que propõem os economistas aterrados, políticas económicas alternativas e uma refundação da construção europeia. Vamos ver até que ponto estas propostas serão tidas em conta para sairmos da recessão e do impasse actuais. Para já, vale a pena conhecer na íntegra este manifesto e discuti-lo em sede própria.

 

Por: Beja Santos

in O Ribatejo

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João Duque: "A Europa vai-se desmoronar!"

Europeísta convicto, o presidente do ISEG não acredita na Europa com este modelo e com estes líderes

 

 

A entrevista foi concedida a meio das férias, entre a chegada do Norte de França e a partida próxima para a Europa Central, agora com as suas três filhas, num itinerário ainda a definir de acordo com as milhas acumuladas no cartão TAP. Os ténis brancos e a écharpe denunciam a chegada directa do aeroporto da Portela, com uma breve escala no ACP das Amoreiras, onde foi renovar a carta de condução. Mas o ar blasé de João Duque, professor de Finanças e presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), contrasta com as palavras duras sobre uma Europa à beira do colapso e sem gente capaz de a segurar.

O mundo não se compadece com férias e está em convulsão. Como olha para a Europa e para os seus líderes?

Com esta gente não tínhamos feito o euro. E com esta gente arriscamo-nos a desfazer o euro!

Voltamos para trás?

Ah, isso seria complicadíssimo. Isto vai ser um trinta e um. Sair do euro, sozinhos, nunca. Isso, para mim, seria um disparate, sair de livre vontade, não. Portugal não tem condições nenhumas, não tem crescimento económico, não tem equilíbrio na balança comercial, não tem meios de financiamento alternativos... Não tem nada! Por outro lado, se sair toda a gente, nós não somos o foco, não somos a ovelha ronhosa... Isto é como uma manada em andamento, de vez em quando larga uns que estão mais debilitados para os chacais. Já estamos cá atrás da manada, se nos largam, morremos!

De quem é a culpa?

Há aqui uma potência muito poderosa, que lidera, e que lidera mal. Lidera mal uma Europa... Lidera lá uns interesses, uma visão de interesses pessoais, que, se calhar, também estão um bocadinho errados. Se não, vamos lá a ver: a maior parte das exportações alemãs são para a Europa, para a União Europeia. E, portanto, se eles contam resolver o problema deles deixando os outros numa situação muito debilitada, isso significa que não estão a resolver nada. E deixa-se a Europa à mercê do abutre de maior dimensão.

A Europa seria diferente sem a chanceler alemã, Angela Merkel?

Sim, claro. Sem Merkel, sem Sarkozy... Podia e devia ser diferente! Eles têm que dar um passo à frente em termos de construção da Europa. A Europa deu passos significativos e o último grande passo foi a criação do euro. Depois disso, não se fez praticamente nada. E os passos que agora se estão a dar são passos que não vão no sentido da criação de uma Europa.

Em que sentido vão?

É engraçado. Há 20 anos, olhava-se para a criação da Europa e aquilo que se criticava era o esbatimento da noção de nação, de fronteiras, de identidade. E o que se está a fazer hoje é vincar fronteiras, diferenças, nações.

O que estes políticos estão a fazer é voltar a delinear uma linha grossa, dentro do envelope da Europa, a traço menos grosso mas marcado. Estão a marcar o que estava a ser esbatido.

O esbatimento maior foi quando se perderam as moedas. E atrás da moeda podia vir a dívida e os impostos associados à dívida, porque não há ninguém que vá comprar a dívida de alguém que não tem um poder directo sobre os activos, sejam existentes ou futuros, para entregar em colateral. Isso não existe.

Há o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira...

Mas o que temos neste momento é uma coisa vaga. Há uma emissão de dívida, para salvar uns quantos, mas não há o reconhecimento claro de que há activos por parte do fundo para agir de forma directa, sem passar por 27 parlamentos a aprovar não se sabe o quê. E se for só pelos parlamentos, boa! Porque pode ser ainda mais complicado, quando dos 27 dez ainda têm passar por referendos para permitir que determinado tipo de bens possam servir para pagar dívidas! Mas alguém vai pagar uma dívida destas?! Só se for louco! Portanto, o problema não está nada resolvido. Atamancaram aqui uma solução, não resolveram nada, e isso nota-se! Qualquer coisinha, lá vai o Sarkozy falar com a Merkel ao fim do dia, porque os mercados estão a tremer. É evidente que estão a tremer, os líderes são os primeiros a tremer!

Se falasse com Merkel, hoje, o que tinha vontade de lhe dizer?

Eu tinha vontade de fazer uma pergunta que acaba por ser comum a todos os outros, que é: como é que a senhora quer ficar conhecida para a História? Por aquela que destruiu ou por aquela que construiu a Europa?

Que passo devia ser dado agora, na construção da Europa?

Se querem construir uma Europa, têm que construir um governo europeu, com políticas económicas europeias e políticas de financiamento público europeias. Coisa que nunca houve.

E o que é que impede a constituição desse governo europeu?

Eu compreendo que seja preciso dar passos. Ninguém aceitaria a Europa se um dia se chegasse e dissesse: vamos aqui construir uma coisa e perdemos todos a identidade, perdemos os governos, faz--se um governo único que é quem vai mandar... Ninguém aceitaria isso. Para o aceitarem, as pessoas teriam de perceber que há passos que não nos levam a um terreno forte, que garanta um nível suficiente. O problema é que se esbarrou contra uma parede. Até aqui, houve a sorte de a Europa ter tido em determinada altura dois ou três líderes que tiveram essa visão e que deram um passo. Imagine a coragem e o poder do ex-chanceler alemão, Helmut Kohl, ao dizer à Alemanha: vamos acabar com o marco para aceitar uma coisa que é uma misturada de moedas...

Hoje não temos líderes, é isso?

Pois não temos! Não temos. A Merkel não tem visão, o Sarkozy não tem visão, não é com Berlusconi que vamos contar... Os próprios responsáveis pela manutenção dos sistemas não são capazes de os manter, estão a deixar colapsar a Europa. Isso, para mim, é muito perigoso.

E vê algum líder a caminho?

Pois não, não se vê nenhum a caminho. E isto é perigoso, do ponto de vista político.

Em que sentido?

No sentido que pode dar azo a oportunismos de movimentos de natureza duvidosa, de gente mal-intencionada que, depois, pode vir a liderar o descontentamento. E há muita gente que até está contente, porque, apesar de tudo, o sistema da Europa é um sistema que se baseia numa democracia em cima de uma economia de mercado. E há muita gente que acha que a economia de mercado é a pior coisa que pode haver e que gostaria de ver tudo isto implodir.

Fala de quem, concretamente?

Dos extremistas islâmicos, por exemplo, ou dos comunistas, que ainda os há.

No final da semana passada o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, veio pressionar os Estados- -membros para actuarem com maior rapidez...

O drama não é Durão Barroso fazer pressão. O drama é ele ser imediatamente desautorizado. Soube-se logo que a proposta não era aceite por todos, que não era bem-vinda... É a tal coisa, por uma triste conjugação de planetas, não temos estrelas!

Que atitude devia tomar Durão Barroso?

Nunca vi Durão Barroso como líder. Ele foi escolhido por características que são tudo menos aquilo que se pede a um líder europeu. Tem uma paciência infinita e uma grande capacidade de diplomacia, é um pacificador. E estava entre aqueles que não incomodavam.

Deitamos fora os líderes ou deitamos fora o modelo de Europa?

O que eu vejo é que esta gente é incapaz de manter o que lhes deram, quanto mais andar para a frente. Mas o modelo tem que ser outro.

É preciso reinventar a Europa?

Isto aconteceu em todas as fases da História: períodos bons e sucessores que não foram capazes de os aguentar e as coisas desmoronaram-se. E depois são maus!

E o que é que têm que ser capazes de fazer?

O que tem que haver é políticos candidatos à Europa. A organização política tem que ser diferente. Tem que haver eleições europeias. É preciso dar o salto.

Têm que dar passos significativos em frente. Têm que criar um governo europeu, têm que criar políticas europeias, têm que financiar a Europa do ponto de vista das finanças públicas de uma forma federal, têm que libertar para a Europa o poder de tributar e fazer uma política económica mais europeia.

E o que estão a fazer não é nada disso! Estão a dizer que o responsável de cada dívida é ele próprio, criam mecanismos de ajuda a uma região, mas a dívida é deles, eles é que têm que a pagar... Quanto muito, vá umas ajudazinhas, uma taxa um bocadito mais favorável... Mas atenção, isto não é um por todos e todos por um, é cada um por si!!!

E o aumento do fundo de resgate é mais uma medida avulsa?

É. Não resolve o problema de fundo e deixa mais a nu a necessidade de se darem passos significativos, porque, como se vê, isto não é suficiente para fazer coisa nenhuma. Mais, deixa de fora, por exemplo, dois que já estão a abanar, a Espanha e a Itália. Se o fundo já não chega, com estes então...

Os políticos europeus deviam perceber que, para salvar o sistema, têm que abdicar de algumas coisas e têm que ser corajosos. Mas estão sempre a jogar à defesa. A Europa, neste momento, parece um governo de Sócrates: sempre atrasado nas medidas, sempre a inventar desculpas e a fazer uma série de trapalhadas. Em vez de estar a liderar, a antecipar e a ir para a frente, está sempre a reagir.

Qual teria que ser o valor do fundo para ser considerado suficiente?

De, pelo menos, 60% do PIB europeu. E provavelmente não chegaria.

A solução não passa por aí?

Pois não. Isto é uma coisa que poderia resolver, em determinada altura, o problema de um ou dois... pequeninos. Mas não é a resolução do problema da Europa. Das duas uma: ou querem conceber a Europa ou não querem conceber a Europa. Eu entendia que algumas fases tivessem prazos e fossem necessários passos mais curtos para fazer as coisas. Aliás, deram-nos um calendário para aplicar milhões de medidas. À escala europeia, as medidas vão-se tomando com uma cadência trimestral, semestral, anual. Desde o momento em que se implementou o euro, passou uma década e não se fez mais nada. Isto não são calendários europeus. Já deviam estar com uma agenda muito mais europeísta, focada no problema de fundo.

E qual é o problema de fundo?

O problema é a Europa. É preciso esquecer os problemas nacionais e pensar na Europa. Neste momento, já se percebeu que com os habitantes, com os agentes, com os decisores económicos que temos hoje, ninguém acredita nesta solução. A partir daqui, é simples: isto vai-se desmoronar! Estas pessoas não são capazes de manter o sistema.

Porquê?

Porque não percebem que há mudanças que levam a que só para se manter o sistema seja preciso mudar esse mesmo sistema. E aquilo que se está a mudar não é suficiente para acompanhar as mudanças. E não há ninguém na Europa capaz de o fazer.

As pessoas estão na vida activa entre os 25 e os 65 anos, são quarenta anos. Em dez anos, um quarto das pessoas que estão activas a tomar decisões desapareceu e entraram novos. Nos últimos 20 anos, metade dos decisores já são completamente diferentes, aqueles que estavam no topo da pirâmide desapareceram todos.

Isso significa que não estamos a ser capazes de formar líderes?

Isso não se forma. Por muito que se lhes dê. Há os genes... Isto foi sempre assim ao longo da História.

O seu cenário é de colapso...

A Europa, assim, vai desaparecer. Fica a Europa geográfica, desde que os países não continuem a deriva das placas tectónicas.

Tem que se resolver o problema maior antes de todos os outros...

Claro. Churchill, quando estava a delinear o desembarque, não estava preocupado se os soldadinhos iam para aqui ou para acoli. Não! A questão é: onde vai ser o desembarque e porquê? Isso é que é decisivo, o resto são problemazinhos. E a Europa dos últimos 60 a 70 anos é o resultado daquela decisão, da influência que ele teve naquela decisão. Mais nada. O resto é conversa!

E hoje, não há essa visão?

Não, nem há quem tenha o poder para. A questão, é que na política internacional sentavam-se três ou quatro pessoas para tomar café ao fim da tarde e todos percebiam que tinham que abdicar de coisas para a construção de um projecto. Toda a gente tem que abdicar. O que está a acontecer é que os estadistas não estão a querer abdicar para construir. Estão a vincar fronteiras para definir limites de responsabilidade. Bom, e se é isto que os cidadãos querem, tudo bem. Agora, meus amigos, tenham cuidado...

Os alemães vão ficar orgulhosamente sós?

Os alemães qualquer dia não saem da Alemanha. Eles, que gostavam tanto de ir passar férias à Grécia, era só descer um bocadinho, já não podem lá pôr os pés. Arriscam a chegar lá e nada funcionar. Imagine que têm um azar, vão parar a um hospital e depois lhes dizem que não há soro - e nem dizem em alemão, que não sabem, dizem em inglês; olhe, soro, não há! O hospital não tem dinheiro para comprar soro. O senhor, trouxe soro de casa, da Alemanha? Não?! Azar. Vá lá mandar comprar. Depois, a seguir, já não vêm a Portugal, depois já não vão a Itália, nem a Espanha... Ficam a fazer férias debaixo do capacete. Se os cidadãos querem isso, é isso que vamos ter.

E voltamos ao mesmo, ninguém dá um murro na mesa...

Esta gente não tem força, não tem coragem. Eles podiam arriscar, mas não arriscam.

Não conseguimos continuar com esta Europa, não podemos sair do euro... Que solução?

Pois, isto é entre escolher morrer ou ficar sem pernas e sem braços.

Mas é aí mesmo que estamos.

É, estamos nessa fase. Portugal sem euro é de tal maneira dramático, que não sei.

Temos as dívidas em euros, mas só algumas, como é que se escolhe? Depois disso, alguém vai financiar Portugal? Portugal vai conseguir importar alguma coisa? Só em valores da balança comercial alimentar, nós exportamos 6 mil milhões de euros por ano e importamos 9 mil milhões de euros. Só aqui, o défice é de mais de 3 mil milhões de euros. Ou seja, vai haver fome. É demasiado grave. E energia? Que combustível é que se compra?

Dentro de Portugal há regiões mais fortes e mais fracas. Se partir e se disser aos fracos agora governem-se, percebe-se logo que estão condenados. Agora, imagine o que é dizer: vocês ficam com a lira transmontana... Quem é que aceita essa moeda?

Portanto, significa fome, mal-estar, doença, morte. É um cenário apocalíptico. E, se olharmos para a História, temos períodos de grande perda, de grande calamidade.

Agora, acho que é um disparate ter-se construído o que se construiu, do ponto de vista socioeconómico, e depois não se ser capaz de manter os sistemas a funcionar. Isto é ruinoso.

Sobre as dívidas soberanas e os Estados Unidos...

Os Estados Unidos estão na mesma jigajoga. Há aqui um fenómeno muito interessante, que é o crescimento do crédito, a nível internacional. O crédito permite uma coisa extraordinária, que é antecipar consumo. É muito saboroso, mas fica a dívida, que já não sabe tão bem. Estou convencido que o Homem é o único animal que concede crédito. Ora hoje, os agentes económicos sabem a mesma coisa ao mesmo tempo - que é no telemóvel - reagem todos da mesma maneira. Isto cria volatilidade nos mercados. Imagine o que é começar a gritar fogo só por causa do fumo de um cigarro.

Neste caso, acenderam os cigarros todos ao mesmo tempo...

Tudo mudava se, de um dia para o outro, disséssemos: o quê, mas isto só tem um endividamento de 100% do PIB, mas isso não é nada. Porque o standard é 200%, toda a gente leu nos livros que até 200% não há problema nenhum. E pronto, vamos crescer em dívida. Deixava da haver problema, tremores, sustos. As bolsas acalmavam, os estados desatavam a emitir dívida, toda a gente a comprar...

Era um pulinho até aos 200%...

Sim, mas acabava o problema agora. As leis económicas de valor e de percepção de valor estão dentro da cabeça das pessoas. A partir daí, nós estamos assustadas com aquilo que criámos. Como é que isso se resolve, como é que desinchamos o balão do crédito que deixámos crescer? Eu não estou a ver forma de o fazer sem perda de bem estar. Vamos ter que penar.

É cumprir os mandamentos da Troika, no caso português?

Sim. Em Portugal, só temos uma coisa a fazer: cumprir aquilo que se acordou com a Troika. Mais nada. Fazer aquilo e ainda melhor que aquilo, em qualidade de decisão e em tempo.

E acredita que vamos ser capazes?

Eu tenho até ficado surpreendido com este governo e com as decisões que tem vindo a tomar. A privatização do BPN, por exemplo.

E isso vai salvar Portugal?

Não, não vai. O problema é que depois tem que haver a alteração do paradigma económico. E essa alteração não vai estar nas mãos do governo, vai estar nas mãos do portugueses. O infante podia dizer vamos com as naus, podia até construir as naus. Mas quem entra nas naus tem que entrar de livre vontade. Nós, ou bem que estamos numa economia de mercado ou não estamos numa economia de mercado. O que o governo tem que fazer é ser o agente facilitador.

A nossa economia ainda está muito estatizada...

É preciso tirar esse peso, que é muito fácil ser burocratizante, à economia. Porque a administração pública, o Estado, não tem por função desenvolver a maioria das actividades económicas que por aí faz. Não tem. O Estado não deve ter aquilo que deve pertencer à iniciativa privada. E falta iniciativa privada, dos cidadãos. Ainda temos esta cultura, de achar que o Estado é que tem que resolver tudo. E depois, acham que dá segurança estar no Estado. Isto tem que se alterar. Não dá segurança nenhuma estar no Estado, o que dá segurança é estar numa actividade que é bem sucedida.

Portanto, acho que se deve repensar o poder do Estado e os deveres do Estado para depois desobrigar os cidadãos e dar-lhes mais possibilidade de escolha: façam o que entenderem.

Então não aprova o reforço orçamental de 12 mil milhões para a banca...

O sistema bancário ou é privado ou é público. Aquilo que se diz é o orçamento passa a prever a possibilidade de, de alguma forma, vir a suportar a solvabilidade dos bancos. Como é que o vai fazer? Se o capital for remunerado, não vejo problema nenhum. Se o Estado for accionista como os outros, entrando através de um aumento de capital, e tiver participação nos lucros, acho bem. Passado um tempo, pode vender a sua posição, de preferência por mais dinheiro do que a comprou.

Mas é importante sublinhar que deve jogar sempre pelas mesmas regras, ou não deve?

Isso leva-me a outra questão. A Europa, tal como está também não se safa, por outros motivos. Tem uma população envelhecida e um problema de concorrência com os asiáticos, que dificilmente supera... Para pôr as coisas no sítio certo, a Europa tem que passar a exigir um comportamento da contraparte com quem se relaciona semelhante àquele que tem com os seus. Não pode estar a competir no mercado com regras diferentes. Não podemos negociar com quem não pratica internamente o mesmo tipo de regras que nós praticamos. Caso contrário, está a haver competição desleal. Não é justo estar a fechar fábricas e punir os portugueses que têm a trabalhar miúdos com doze anos, quando os outros países fazem isso.

E como é que isso se garante?

Têm que ter vistos. Carimbos de qualidade, se não, não entram. Tem selo de compliance entra, não tem fica fora. Isto disciplina a contraparte. Não pode importar coisas que danificam a estrutura produtiva interna à custa de um liberalismo total. Isto é ridículo. A concorrência interna não se pode beliscar e depois é queimada pela concorrência externa. E depois, há dois indivíduos a digladiarem-se no tribunal europeu, porque este fez aqui e o outro fez não sei o quê. E vem um de fora da Europa e os dois de dentro ficam insolventes... Mas que ridículo é este? O que quero é que o que vem jogue com as mesmas regras dos de dentro. E isso, é o Estado que tem que impor.

Falou em terrorismo. O terrorismo, hoje, não precisa fazer sangue...

Os mercados financeiros permitem conquistar território financeiro sem invasão. Compra um activo, tem a influência, o poder. Hoje não se espicha sangue, mas podem fazer-se muitas maldades dentro da lei. São outras invasões.

E adivinha-se já quem vai ganhar esta guerra?

Não tenho assim uma visão estruturante. Mas há grupos económicos que conseguem entrar em Portugal, ganhar posição, ter imenso poder, e que estão claramente a ganhar. Têm poder aquisitivo. Eu vejo isso com bons olhos. São essas as regras que estão estabelecidas, não tem problema, pelo contrário. Sinto-me mais próximo de decisores angolanos do que decisores chineses, até do ponto de vista cultural.

E que é que está no início e no fim da "cadeia alimentar"?

Os EUA são a baleia ferida. Muita força, mas muito ferida. Por outro lado, tem um animal extraordinário que é a China, mas que precisa da baleia para alimentar essa pujança. O curioso é que criou uma interdependência no Mundo que desagrada a todos. E é por isso que o equilíbrio está agora em risco.

Estamos a tomar consciência dos limites da democracia?

Sim. Mas isso não é mau, é até bom. Apercebemo-nos de que há coisas que, em determinadas fases, não podem ser votadas.

Como é que vê o próximo ano?

Pior que este. Isto é como o parafuso, aperta sempre para o mesmo lado e, em cima de um aperto, é preciso outro e mais outro. Montámos, agora temos que pagar as contas! Mas sabe, tenho feito imensas palestras, imensas conferências e, quando acabo, fico um bocado desanimado, porque a expectativa é sempre muito negra. Eu tenho a expectativa de acabar a minha carreira já não em Portugal, mas a fazer conferências internacionais a explicar como é que Portugal foi capaz de sair desta situação. Ainda não sei bem a história que vou contar...

 

por Isabel Tavares

in iOnline

 

 

 

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Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Outra vez o engano dos resgates: agora Portugal?

 

 

Em outros artigos referentes ao caso espanhol salientei que quando se fala de "resgatar" um país se verifica um grande engano que é imprescindível por a nu.

Passa-se o mesmo com Portugal, agora quando as autoridades europeias e os chamados "mercados", na realidade os grandes grupos financeiros e empresariais, insistem em que o governo português solicite que o seu país seja "resgatado".

Geralmente, quando se fala de "resgatar" um país parte-se de uma situação real e grave que costuma manifestar-se num grande endividamento que dificulta ou impede enfrentar os compromissos de pagamento adquiridos. Contudo, quando isto ocorre produz-se um engano muito bem orquestrado em relação às razões, aos problemas, às soluções e aos efeitos da operação que se deseja efectuar.

O primeiro engano costuma dar-se quanto à natureza dos problemas que sofre o país ao qual se diz que é preciso "resgatar". Agora, como nos recentes casos grego ou irlandês, afirma-se que Portugal tem um grave endividamento público decorrente do crescimento excessivo dos seus gastos que o obriga a recorrer a um empréstimo vultoso para com ele liquidar as suas dívidas. Não é de todo certo, assinalarei a seguir.

O segundo engano decorre da anterior. Para que o "resgate" seja útil afirma-se que deve ir acompanhado de medidas que resolvam o problema que originou a situação que se quer resolver e que, portanto, devem consistir principalmente em cortar despesas. Em consequência, os que concedem o empréstimo para "resgatar" o país, neste caso Portugal, impõem políticas consistentes em cortar qualquer tipo de despesa pública e especialmente a que está vinculada a actividades que dizem poder ser efectuadas mais eficazmente pelo sector privado, ou seja, com os serviços públicos (mais outro engano porque não é certo que o faça melhor e contudo é inevitável que o capital privado o faça mais caro e para menos população), ou o que se considera improdutivo, como por exemplo o salários dos funcionários.

Ao mesmo tempo engana-se também quando se afirma que o resultado do resgate será o maior incremento da actividade e da criação de emprego e que, portanto, graças a ele as águas da economia voltarão ao seu leito anterior e inclusive a um nível muito mais satisfatório de rendimento económico.

Desde que na década de oitenta começaram a verificar-se "resgates" em economias da América Latina pudemos ver como acabam este tipo de operações (com menos actividade, emprego e desigualdade e com mais pobreza) e analisando a situação dos países que foram ou vão ser "resgatados" podemos comprovar sem demasiada dificuldade a natureza desta fraude.

Os problemas económicos de Portugal não são exactamente o resultado de ter havido muita despesa pública [NT] , de endividamento público. É verdade que o défice aumentou muito nos últimos anos mas isso verificou-se em consequência da crise que os bancos provocaram e de se haver imposto uma resposta à mesma baseada no salvamento à custa de um preço extraordinariamente alto. De facto, o governo português, seguindo diretrizes e exemplos europeus e a pressão dos próprios poderes financeiros, chegou a nacionalizar bancos em operações que lhe custaram muito caro.

Mas nem sequer é isso o que provoca os problemas mais agudos da economia portuguesa. O seu problema mais grave não é o endividamento público e sim o externo e este tem-se verificando nos últimos anos não precisamente porque tenha havido desperdício público e sim como consequência das políticas neoliberais que destruíram a sua riqueza produtiva, a sua indústria e agricultura e que lhe restringiram as fontes de geração de rendimentos, já em si muito débeis. Como em tantos países, foram estas políticas geradoras de escassez – a fim de salvar o lucro dos grandes grupos oligárquicos e que obrigaram Portugal a vender seus melhores activos produtivos ao capital estrangeiro – que destruíram tecido industrial e a produção agrícola e que provocaram um enfraquecimento da sua capacidade de criar impulso económico, da sua competitividade e, em consequência, o incremento da dívida externa.

A realidade é que as politicas neoliberais auspiciadas pela União Europeia significaram um espartilho para a economia portuguesa e tem produzido nos últimos anos um agravamento do desemprego e da pobreza que se tentou dissimular, entre outros meios, graças ao domínio dos grandes meios de comunicação, os quais estão cada vez mais nas mãos desses mesmos capitais estrangeiros.

E quando estalou a crise e quando o governo assumiu os encargos extraordinários do salvamento bancário, assim como quando sofreu maior declínio de rendimentos e aumentos de despesas para evitar o colapso da economia, é que a situação se tornou insustentável.

Portanto, é mentira que o "resgate" seja obrigatório porque a economia portuguesa sofre devido ao endividamento público. Se se encontra cada vez mais debilitada é por outro tipo de razões.

E aqui vem outro engano especialmente perigoso. As medidas que Portugal precisa para salvar sua economia não são aquelas destinadas a reduzir a despesas e sim em mudar o tipo de política que vem provocando perda de rendimentos, de actividade e de emprego e uma desigualdade cada vez maior, que fez com que os rendimentos em aumento das classes ricas se tenham destinado ao investimento financeiro ou imobiliário especulativo que deram grandes lucros a bancos, também estrangeiros, dentre os quais destacam-se os espanhóis, mas que acumularam muito risco e criaram uma base cada vez mais volátil e débil para a economia portuguesa, como agora se pode confirmar.

O engano seguinte tem a ver com os efeitos benéficos que dizem que teria o "resgate".

Ao contrário do que afirmam os porta-vozes dos grandes grupos financeiros, se aos problemas reais que acabo de mencionar acrescentar-se agora, como querem os que se dispõem a "resgatar" Portugal, cortes na despesa, diminuições de salários e em geral políticas que vão provocar diminuição da procura, o que ocorrerá será que a economia portuguesa ficará ainda pior porque tudo isso só vai provocar uma queda do consumo, do investimento e do mercado interno e, portanto, menos actividade e menos emprego.

RESGATE DOS BANCOS, NÃO DO PAÍS

A realidade é que o "resgate" de Portugal, tal como se verificaria seguindo a linha de outros tantos anteriores (um empréstimo muito vultoso para que Portugal pague as dívidas acompanhado de medidas restritivas e de cortes de direitos sociais e de despesas) não vai salvar a sua economia. É mentira que este tipo de operações resgate os países. Isto é só um último e definitivo engano: do que se trata não é de salvar ou resgatar um país e sim os bancos, principalmente, e os grupos mais ricos e poderosos, uma vez que o que se faz com o resgate é por dinheiro para que eles cobrem suas dívidas e obrigar a que a sociedade arque com a factura da operação durante anos.

Isto é tão certo que se torna fácil e patético comprovar que são precisamente estes grupos financeiros e as autoridades europeias que o servem os que se empenham em convencer os portugueses a que solicitem o "resgate", uma boa prova de quem são realmente os que dele se beneficiarão.

E isto põe em cima da mesa uma última questão. Um engano não menos importante. Talvez o pior. A que tem a ver com o tipo de regime político no qual vivemos e no qual os eleitores, os cidadãos, não podem decidir realmente sobre as questões económicas.

Chamam a isso democracia mas em vista do que tem sucedido está cada vez mais claro que não é porque foi-nos furtada a possibilidade de decidir sobre as questões económicas que evidentemente são uma parte central daquelas que afectam directamente a nossa vida. E é justamente por isso que temos de fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para tratar de mudá-los. Isso sim é que seria um verdadeiro resgate. O demais é outro roubo.

29/Março/2011

 

 

[NT] O autor refere-se certamente ao volume da despesa pública e não à qualidade dos investimentos públicos efectuados. Todos se lembram de péssimas aplicações dos recursos públicos, como os enormes investimentos na construção de auto-estradas a partir do governo Cavaco Silva, na construção de onze estádios do jogo da bola no governo Guterres, em construções inúteis para dar serviço a clientelas de empreiteiros, na compra de submarinos, nos projectos insanos de novo aeroporto e de TGVs que mesmo hoje ainda não foram enterrados.

 

Por  Juan Torres López (Professor catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Sevilha)
O original encontra-se em juantorreslopez.com/.... Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em Resistir.info  

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