Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Os cem abrigos de Lisboa

O Eng.º Monteiro trabalhava na Câmara há vinte anos e já tinha ouvido falar das casas à borla. Não ligava muito também diziam que a Deonilde da contabilidade vendia ouros e ele não acreditava. Quando o falatório se tornou ensurdecedor, e todos os dias era mais um e mais outro que também tinha uma casa da Câmara, perguntou à sua chefe o que é que se passava. Afinal, tudo tinha uma explicação.


 

Era a CML, Cooperativa Municipal de Lisboa, um modelo habitacional autárquico alternativo, de influência socialista: a edilidade dispunha de uma bolsa de apartamentos e casas, de várias tipologias, para distribuir pelos funcionários e amigos.

Não era o modelo típico soviético, do bairro do funcionário do partido, gigantes Portelas cinzentas, ninhos de clones burocráticos. Também não era o modelo cleptocrático do terceiro mundo, em que os do Partido tinham moradias luxuosas e o resto dormia e morria na sarjeta. Não. Era um modelo misto: alguns funcionários, intelectuais e artistas tinham casas do município. Outros não. E havia casas para todos os gostos: em bairros históricos, em bairros de intelectuais, casas boas, casas menos boas.

Também havia bairros sociais, mas esses eram, como o nome indica, para os pobres. Alguns pobres.

A Cooperativa era eficaz: um processo desburocratizado em que uns pediam e outros davam. Era fácil e rápido. Gente boa lá do serviço, de confiança, que não ia faltar com a renda combinada, nem estragar muito as paredes. E se fosse preciso, a senhoria ia fazendo obras. Era uma espécie de casas de função, mas sem função, nem lei.

Também explicaram ao Eng.º Monteiro que o sistema da Cooperativa Municipal de Lisboa ia ser atacado por calúnia e inveja de muitos. Reaccionarices de quem desconfia do que é novo.

Diriam que Lisboa tem milhares de sem-abrigo, de pobres em casas decrépitas, de jovens casais expulsos para a Bobadela pelas taxas de juro. Demagogias. Calúnias. Mas o Eng.º não percebia bem por que estas casas não eram para esses.

Explicaram-lhe que estava a misturar coisas diferentes. Aquelas casas nunca seriam para os sem-abrigo que, por natureza e pelo nome, não podem ter um abrigo (até lhe disseram que não querem ter abrigo). Nunca seriam para os casais de jovens suburbanos porque senão estes deixariam de ser suburbanos (até lhe disseram que eles gostavam de ser suburbanos e que não apreciam as casas da Câmara em zonas sofisticadas). Era outra lógica. Repetiam-lhe: um modelo de habitação municipal misto, de inspiração socialista. Continuava sem perceber muito bem.

Sempre que chegava a casa e via o vagabundo que dormia na rampa da sua garagem, o Eng.º pensava nas palavras da Ana Sara Brito, lá da Câmara: "cada sem-abrigo tirado da rua é uma vitória".

Há quem devesse ter vergonha dos sem-abrigo, mas tem abrigos sem vergonha.
 
 
João Taborda da Gama
 

 

Isto dá para tudo ! E depois disto ainda fazem greve. De certeza que não é por "espirito de classe" ! Se calhar, mas só se calhar é porque acham que a avaliação profissional não se justifica no seu caso. Até porque não confiam nos seus superiores, em todos, e neles próprios quando são promovidos, vá-se lá saber porquê.......

publicado por portuga-coruche às 12:24
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Terça-feira, 8 de Abril de 2008

7 Pecados no El Dorado

Lucílio Baptista não se limitou a fechar os olhos à estalada de Quaresma a Rolando no domingo, na enésima infracção disciplinar passada sem julgamento de um jogador do FC Porto ao longo da temporada.

Tal como a agressão de Bruno Alves em Matosinhos e muitas outras nas jornadas anteriores, os árbitros, negligentes perante os excessos dos jogadores portistas, revelam uma insegurança inerente à falta de esclarecimento dos seus líderes perante a necessidade de demonstrarem absoluta independência relativamente a agentes acusados de corrupção, sem de algum modo porem em perigo o futuro, quando tudo acabar com a honrosa e dourada absolvição de toda a grande família do ‘sistema’.

Enquanto tem decorrido a fase instrutória do processo desportivo do ‘Apito Dourado’ assiste-se a um acomodamento progressivo da arbitragem ao domínio psicológico e jogo de influências que marcava o panorama desde meados dos anos 80, quando o FC Porto, através do braço armado da Associação de Futebol do Porto, tomou conta do Conselho de Arbitragem da FPF. O mesmo tipo de decisões normais e ‘lógicas’ em campo, favorecendo sistematicamente a equipa azul e branca, caracteriza este processo de rendição em que a maioria dos árbitros sobreviventes procura dar a saber que nunca hostilizará o clube dominante.

Só assim se explica o número anormalmente elevado de decisões a favorecer o FC Porto ao longo da temporada, raramente suscitando controvérsia e merecendo da Comunicação Social em geral a mesma indiferença cúmplice e a assunção de que tudo está bem quando acaba bem.

Uma percentagem anormalmente alta, de quase 20%, de golos irregulares é o sinal mais evidente desta nova ordem saída do processo ‘Apito Dourado’, que, longe de condenar o tráfico de influências generalizado há muitos anos, promete apenas reforçar o poder público dos ‘padrinhos’ deste sistema, depois de darem mais um ‘chito’ no sistema judicial e no Ministério Público, incapazes de provar a corrupção.

E, ao domínio técnico e futebolístico incontestável, o autêntico El Dorado portista em que se transformou a Liga, associa-se um colaboracionismo militante que redundou em pelo menos sete erros flagrantes que a opinião pública digeriu fleumaticamente, por não lhe parecer que estando sob alçada judicial e disciplinar os dirigentes do FC Porto pudessem continuar a dirigir a seu bel-prazer os meandros do jogo. Pelo contrário, esse poder é a demonstração do domínio absoluto e incontroverso, com um condicionamento psicológico que nenhuma corrupção declarada conseguiria fazer melhor.

Qualquer análise sumária dos números aponta à mesma conclusão. Desde que começaram os processos instrutórios nos tribunais, há cerca de dois anos, a equipa portista deixou de ser julgada com severidade em campo, com jogadores como Quaresma, Pepe, Pedro Emanuel, Cech e Bruno Alves a passarem ao lado de expulsões por faltas e agressões que os árbitros não tiveram coragem de punir disciplinarmente. Nestes dois anos, a equipa portista cometeu mais faltas em campo mas sofreu apenas duas expulsões, contra oito do Benfica e sete do Sporting. E as que acidentalmente ocorreram (Quaresma, Leiria, e Mariano, Académica) parecem ter assinado a ‘sentença de morte’ das carreiras dos árbitros, os imprudentes Elmano Santos e Cosme Machado.

UMA LIÇÃO DE ARBITRAGEM

Pedro Proença protagonizou o primeiro grande escândalo da época ao tomar uma decisão acertada que chocou milhares de adeptos (e não só) menos familiarizados com as regras do futebol no célebre livre indirecto dentro da grande área, no FC Porto-Sporting, de que veio a resultar o triunfo portista. O melhor árbitro português é dos poucos que mantêm uma aparente relação de superioridade com os agentes da bola, dando-se ao respeito dos tubarões e passando ao lado das pressões. Farão tudo para o manterem longe, porque reconhecem a dificuldade de desfrutar de julgamentos tendenciosos, ‘normais’ com a maioria dos árbitros politicamente correctos.

A ARTE DE FECHAR OS OLHOS

No recente Leixões-FC Porto, o árbitro que vem sendo apontado para um lugar de destaque nos próximos anos, Jorge Sousa, mostrou dominar já a capacidade para fazer carreira – a largueza de critérios no julgamento das jogadas intimidatórias e violentas da equipa do FC Porto. A agressão de Bruno Alves a Jorge Gonçalves, um dos lances mais violentos vistos num estádio português nos últimos anos, foi obliterada pelo seguro árbitro portuense, poupando-se a uma grande chatice e mostrando ter aprendido com o ‘fim’ da carreira de Elmano Santos, ditado pela ‘coragem’ de mostrar o cartão vermelho a Ricardo Quaresma há um ano. A impunidade dos jogadores do FC Porto explica o baixo índice de expulsões relativamente aos adversários desde que se iniciou o processo ‘Apito Dourado’.

SUSPENSÃO PECA POR TARDIA

O árbitro que tomava cafezinho em casa do presidente do FC Porto só agora foi suspenso pela Liga de Clubes e vai, finalmente, ficar impedido de continuar a influenciar negativamente a competição. Trata-se de uma decisão importante e lógica, que só peca por tardia, ao repor alguma igualdade de critérios entre todos os concorrentes.

Na realidade, Augusto Duarte já estava inibido de dirigir partidas dos três grandes, por opção unilateral da Comissão de Arbitragem, que constituía uma estranha diferença relativamente aos outros clubes.

O último jogo importante de Augusto Duarte tinha sido a fabricação do triunfo do FC Porto em Penafiel, há dois anos, quando assinalou um penálti inexistente sobre Ibson, e a partir daí foi cirurgicamente afastado das partidas dos três grandes. Mas foi sempre mantido no quadro e acabou por ser nomeado recentemente, pela Federação, para um jogo da Taça de Portugal envolvendo o Benfica, provocando uma reacção violenta do clube vítima das suas alegadas conspirações.

BRUNO PAIXÃO

Apesar da contrição oficialmente assumida perante Pôncio Monteiro, o árbitro detestado pelo FC Porto foi religiosamente mantido afastado dos jogos da equipa de Jesualdo Ferreira depois das queixinhas que se seguiram à derrota frente ao Sporting na Supertaça. Quando parecia ‘reabilitado’, ei-lo outra vez atirado para o índex e virtualmente vetado. A subserviência da Comissão de Arbitragem nota-se mais quando se repara que Paixão já foi nomeado para três jogos do Benfica, todos fora de casa.

PAULO PARATY

O árbitro odiado pelo Sporting e conotado com o rival da 2.ª Circular também já serviu para três partidas do Benfica mas foi religiosamente mantido afastado dos dragões, com quem tem um registo de quase 100% de vitórias. Como a última imagem é que perdura, despede-se como ‘aliado’ dos encarnados, não obstante o saldo de resultados bem menos favorável. Para quem tanto procurou agradar ao poder portista ao longo de 17 anos (14v-3e-1d), esta segregação assume o cariz de mal-agradecimento.

 

GOLOS IRREGULARES DO FC PORTO

 2003/04  0
 2004/05  2
 2005/06  2
 2006/07  1
 2007/08  7

SETE PECADOS

JOÃO VILAS-BOAS

3.ª jornada, em Leiria: Bruno Alves fez o passe para Lisandro depois de a bola ter passado a linha de fundo.

O. BENQUERENÇA

5.ª jornada, em Paços de Ferreira: contra-ataque lançado por Leandro Lima, com Lisandro a arrancar deslocado.

RUI COSTA

8.ª jornada, frente a Leixões: Lisandro prepara o remate ajeitando a bola com a mão à entrada da área.

PAULO BAPTISTA

9.ª jornada, frente a Belenenses: Hélder Postiga, lançado por Paulo Assunção, mais de dois metros fora de jogo.

PAULO COSTA

20.ª jornada, frente a Paços de Ferreira: fora-de-jogo de Farías, que faz o passe decisivo para Lisandro.

JORGE SOUSA

23.ª jornada, em Leixões: Lucho Gonzalez lança Tarik Sektioui que arranca em fora-de-jogo.

 LUCÍLIO BAPTISTA

24.ª jornada, em Belém: grande penalidade inexistente de Hugo Alcântara sobre Ricardo Quaresma.

 

in Correio da Manhã online

 

João Querido Manha
publicado por portuga-coruche às 10:38
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