Sábado, 16 de Agosto de 2008

O engenheiro do Biscainho que largou o emprego para ser padre

Heliodoro Maurício Nuno ajuda jovens à deriva a encontrar o rumo certo

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O engenheiro do Biscainho que largou o emprego para ser padre

 

Gostou de algumas raparigas como é normal nos jovens, confessa que não resiste a um chocolate e se arranjar tempo vai ver o espectáculo da Mariza, embora a sua música preferida seja a música religiosa. O padre Heliodoro Maurício Nuno, começou por ser engenheiro. Depois, quando Deus o chamou, mudou de vida. Diz que é mais feliz agora.

 

Qual é a sua maior tentação?

Sou guloso! Não resisto a um chocolate. (risos)

E qual foi a maior asneira que fez?

Não sei… Sinceramente, não sei. Fiz algumas patifarias quando era miúdo, mas escolher uma é complicado… Às vezes, nas brincadeiras, chegava tarde a casa e a minha mãe já estava preocupadíssima.

Lembra-se de ir às Festas de Nossa Senhora do Castelo quando era miúdo?

Quando era pequeno ia de vez em quando à festa. Lembro-me que havia muitas pessoas vestidas de anjos, santos, pastores. Quem me levava era a minha avó mas nunca me vestiu de anjo. Não tenho nenhuma história engraçada para contar. Acho que aquele ambiente das cerimónias religiosas foi importante para o meu encontro com Deus.

A festa perdeu muito da sua componente religiosa?

A festa tem menos peso religioso que há uns anos atrás. Mas ainda há muitas pessoas que se identificam com os valores cristãos.

É o pregador convidado no fecho da novena. Já escolheu o tema?

Vou falar sobre as virtudes. Especialmente sobre a Fé, a Esperança e a Caridade. Acho que actualmente, neste mundo complicado, estes valores andam um pouco esquecidos.

E o que é que gostava de falar e vai deixar de lado por falta de tempo?

Gostava de falar das virtudes todas. Das virtudes cardiais. A Fortaleza, a Temperança, a Prudência.

Foi a primeira vez que o convidaram para participar nas Festas de Nossa Senhora do Castelo?

Não, já me convidaram mais vezes. Mas das outras vezes não pude vir. Lembro-me que há dois anos estive a ajudar o padre Elias na festa, mas não propriamente na pregação. Este ano, como estou aqui de férias, em casa dos meus pais, pude aceitar.

Até dia 14 vai envolver-se em mais alguma iniciativa na festa? Vai assistir a algum concerto?

Ainda não sei. Vi no cartaz da festa, a Mariza e gostava de ir vê-la. Mas depende da minha disposição.

E a nível de música, o que é que gosta de ouvir?

Eu oiço mais música de mensagem religiosa. Gosto muito da música de Taizé (Comunidade religiosa situada em França), música litúrgica, Gospel…

Nasceu em Coruche e cresceu no Biscainho, como caracteriza as pessoas desta terra?

São pessoas que trabalham muito no campo. O peso da agricultura ainda é muito forte aqui. As mulheres vão bastante à igreja e os homens vão muito pouco.

Foi ordenado padre com 33 anos, acha que a vocação lhe surgiu tardiamente?

A vocação surge no momento em que Deus chama. Eu senti o chamamento durante a escola secundária. Mas na altura tinha outras coisas na cabeça. Percebo o que quer dizer com vocação tardia, mas não concordo. Deus chama sempre na altura certa. E a altura certa nunca é tardia.

Que coisas eram essas? O que é que andou a fazer antes de entrar no seminário?

Muitas coisas… Tirei o meu 12º ano na Escola Secundária de Coruche. Depois, fui estudar engenharia florestal para Castelo Branco. De seguida, estive a estagiar num laboratório. Terminei o estágio, andei à procura de trabalho, mas não encontrei nada na minha área. Encontrei sim, na área da agricultura. Estive a trabalhar numa associação de agricultores, produtores de tomate, em Coruche. Só depois é que surgiu esta ideia de ser padre.

Não se sentia feliz como técnico na área em que se formou?

Não me sentia totalmente feliz. Sentia-me incompleto. Agora a engenharia florestal está aposentada. Ficou para segundo plano.

E durante os tempos de faculdade, apaixonou-se muitas vezes?

Se me apaixonei por quê? (risos)

Por raparigas, por exemplo…

Quer dizer… apaixonar, apaixonar não sei. Agora que gostei de algumas raparigas, gostei. Mas nunca vivi uma paixão forte que me levasse a pensar no casamento.

Não o incomoda o facto de ter de abdicar da paternidade?

Quando era mais novo, pensava nisso. Mas não me incomoda, porque hoje, enquanto padre, sinto-me pai de muita gente e sou feliz assim. Isto não é fácil de se perceber. Claro que por ser padre não deixo de ser homem. Mas o chamamento que Deus me fez torna-se superior à biologia. Além do mais, um sacerdote que não tem vocação para ser pai, certamente não será um bom sacerdote.

A sua família e os seus amigos reagiram bem, quando lhes anunciou que ia mudar de carreira?

O meu pai não reagiu muito bem, mas é compreensível… Os pais têm sempre um plano, mais ou menos elaborado, para cada filho. O meu pai também tinha. Queria ter netos e queria que eu estivesse ligado a engenharia e à agricultura. A minha mãe aceitou… mais ou menos. E quanto aos meus amigos, uns ficaram muito surpreendidos, outros aceitaram e compreenderam.

Houve algum padre, que desempenhe funções aqui no Ribatejo, que o tivesse influenciado?

Sim, os meus párocos. O padre Elias, de Coruche e o padre Joaquim Reia – que já faleceu. Quando entrei no seminário em Évora, o padre Marcelino. Mas é engraçado o padre Reia influenciou-me sem saber. Quando ia para a Escola Secundária e não tinha aulas muito cedo, passava pela igreja e via-o sempre sentado no banco da frente a rezar. Essa imagem marcou-me muito. Houve também uma mulher que marcou muito, pelo seu exemplo e testemunho. Uma religiosa que me deu catequese. A irmã Maria Cândida.

A sua família é religiosa?

Nem sei explicar… Acho que é uma família com uma fé tradicional. A minha mãe ia sempre à eucaristia e inscreveu-me na catequese. O meu pai, nem por isso. Mas sabe como é, nestes meios pequenos há sempre a pressão social muito grande. Os homens não vão à missa. Não porque não gostem, mas porque muitas vezes os outros não vão e se forem, podem ser apontados. Socialmente, para os homens, isso ainda pesa.

As crianças, muitas vezes, também são obrigadas a irem à missa. Nunca se sentiu obrigado a ir à missa?

Obrigado, não. Mas durante a adolescência houve vezes em que não me apetecia ir. Mas acabava sempre por ir.

Como padre, qual é a função que gosta mais de desempenhar?

Como sacerdote é celebrar a eucaristia, isto é, tornar Cristo presente para os outros. Também gosto de ajudar as pessoas na direcção espiritual e na confissão, ajudá-las a libertarem-se dos seus problemas. Essencialmente, é isso.

Nunca pensou ser missionário?

Em tempos pensei. Mas depois essa ideia desapareceu um pouco. Mas eu até acho que sou missionário. A diocese de Évora é muito grande e há sempre pequenas missões a cumprir. Ainda nos meus tempos de seminarista, estive um mês em Angola. Lá, percebi que era importante ser missionário aqui.

Acha que algum dia vai voltar à engenharia florestal?

Acho que não, mas nunca se pode dizer “desta água não beberei”.

 

“Padre moderno?

Não sei o que é isso!”

Trabalha com jovens em Évora. Qual é a grande vantagem de trabalhar com os jovens?

Sentir-me jovem com eles (risos). Estou a brincar! A grande vantagem não sei… mas a grande necessidade que sinto é de lhes transmitir os valores em que acredito e que acho que são fundamentais para a vida deles. Poder ajudar a responder às dúvidas que eles têm. Isso é um grande desafio.

Generalizando, quais são as grandes dúvidas dos jovens, hoje em dia?

Acho que um dos grandes problemas dos jovens de hoje é não terem valores seguros, que conduzam a sua vida. E depois, andam à deriva, têm dúvidas, andam à procura de uma coisa que não sabem qual é.

E a igreja têm qualquer coisa a dizer?

A igreja pode dar os seus valores. Os valores humanos.

A diocese de Santarém o ano passado não ordenou novos padres. O que é que falta á igreja para chamar mais os jovens?

Eu acho que o problema não é da igreja. O problema é da sociedade. Há cada vez menos gente, as pessoas têm cada vez menos filhos…

Mas há imensos advogados, jornalistas, psicólogos no desemprego… Acha que é mesmo esse o motivo?

Eu acho que a Igreja ainda consegue atrair jovens. Conheço muitas paróquias com grupos grandes de jovens. Agora, nem toda a gente tem de ir para padre. Mas há sempre um grupo que se sente cativado.

Acha que a Igreja Católica está realmente adaptada aos novos tempos e às preocupações dos jovens?

Acho que sim. E eu falo pela minha experiência. Não digo isto por uma questão de marketing. As pessoas não se deixam entusiasmar pelo mar-keting. Deixam-se entusiasmar pelas coisas do coração. Tenho feito muitas coisas com jovens e eles encontram na Igreja a profundidade do seu coração. Se a igreja não chega a mais jovens é porque os jovens não estão abertos a isso. Pensam que a felicidade está noutras coisas.

O que é que está disposto a fazer, para cativar mais juventude para o seio da Igreja?

Estou disposto a anunciar publicamente a palavra de Deus. E a interagir com mais jovens. Às vezes, há um pouco de receio de abordar e convidá-los para qualquer coisa. Não é fácil. Mas há que propor sem medo.

Acha que é um padre moderno? É adepto das novas tecnologias por exemplo?

Eu não sei se sou um padre moderno e não sei sequer o que é isso! Eu sei é que tento acompanhar as tecnologias que tenho ao meu dispor, para poder acompanhar as pessoas. internet, messenger…

 

in O Mirante online

publicado por portuga-coruche às 11:31
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1 comentário:
De TV a 11 de Maio de 2011 às 16:56
Julgava que ser padre tambem era um emprego

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