Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Histórias de meninos que trocaram as voltas ao destino

Medicina resgatou-os ao sofrimento e deu uma vida nova a crianças da região


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João Miguel, do Tramagal, nasceu sem orelhas. David Tiago, de Ferreira do Zêzere, nasceu com cirrose hepática. João Dias, de Pontével, recebeu um coração novo aos dois anos e três meses. Foram submetidos a cirurgias delicadas e, apesar de terem que viver toda a vida com cuidados redobrados, são a prova viva de que conseguiram dar a volta ao destino.


 

A tarde já estava a findar quando o fomos encontrar no jardim de sua casa, no Tramagal (Abrantes). Entretido a brincar com carrinhos e aviões em miniatura na companhia do Duarte, um novo amigo. Quem para ele olha está longe de imaginar que João Miguel, o filho mais novo de Luísa Lobato e Rui Antunes, nasceu sem orelhas no dia 28 de Agosto de 1999, no Hospital de Abrantes. O que já quase nem se nota porque, segundo conta a mãe, nos últimos meses quis deixar crescer o cabelo como os outros meninos.

João Miguel nasceu com microtia e atrésia do canal auditivo externo que resultou em surdez severa devido à malformação, provocando a ausência dos pavilhões auriculares. O menino conseguiu recuperar as suas orelhas numa clínica dos Estados Unidos, após ter sido submetido a seis cirurgias. Um caso inédito em Portugal. Foi o pai, Rui Antunes, sargento da GNR, que descobriu na Internet que havia um médico nos Estados Unidos, em San Francisco, que tinha muita experiência no acompanhamento e resolução deste tipo de casos. A resposta do especialista foi célere e nem o facto de a operação custar 150 mil dólares, cerca de 150 mil euros, demoveu o casal de procurar apoio financeiro junto do sistema nacional de saúde, o que acabou por conseguir.

As duas últimas cirurgias, de reconstituição estética das orelhas, foram realizadas em 2007. “Senti um alívio muito grande por aquilo ter acabado e ao mesmo tempo pena de não voltar lá mais, aponta Luísa, professora primária, com saudades do país. O filho também gostava muito de lá ir outra vez, agora apenas em passeio e já sem a cabeça enfaixada, imagem que chamava a atenção de todos por onde passava, o que às vezes o incomodava.

O menino brinca com carrinhos e aviões no alpendre do jardim. Alheio à conversa que se passa, olha de vez em quando para a mãe. Em 2008 submeteu-se a mais duas cirurgias no Hospital de Dona Estefânia, em Lisboa, que contribuíram em definitivo para a melhoria da sua qualidade de vida. Junto à orelha direita foi colocado um pequeno implante que está ósteo-incorporado. Com o aparelho, a sua audição está ao nível das outras crianças, atesta o pai. O mecanismo não pode apanhar humidade e retira-se à noite. João sabe que vai ter que o usar para toda a vida.

Aluno razoável, o menino passou para o 5.º ano. Neste momento está a tratar da dentição, até agora desalinhada por causa da malformação com que nasceu. Ir ao médico faz parte da sua rotina mensal. Para além de terapia da fala, tem consultas de otorrinolaringologia, alergologia e acompanhamento na psicóloga, entre outras. Os cuidados com a alimentação também são redobrados uma vez que, segundo a mãe, “as suas defesas são um bocadinho mais baixas”.

Sofre ainda de renite alérgica e urticária solar, ou seja, não aguenta muito tempo ao sol. Apesar destes cuidados, Luí-sa Lobato é uma mãe feliz com o actual estado de saúde do filho que considera um menino igual aos outros. “É muito comunicativo e penso que recuperou a sua auto-estima. Por ele, passava por tudo outra vez”, aponta preferindo esquecer os dias negros de tormenta por que passou e encarar um futuro, hoje, mais em tons-de-rosa.

 

Um rim partilhado por mãe e filho

David Tiago tem três anos, um metro de altura e pesa 18,700 kg. Muito esperto, comunicativo e curioso adora brincar com água e andar na mota eléctrica pelo quintal da avó, na aldeia de Alqueidão de Santo Amaro, freguesia do Bêco, Ferreira do Zêzere. “Adora mandar-se para dentro de água no rio”, conta a mãe a rir. David submeteu-se a um transplante de fígado para tratar uma cirrose hepática. A mãe, Ana Antunes, foi a sua dadora. A operação colocou-os lado a lado no bloco operatório do Hospital Pediátrico da Universidade de Coimbra durante mais de 15 horas. Foi no dia 5 de Abril de 2007, depois de a operação ter sido adiada por algumas vezes por complicações de saúde do menino.

Na altura, a história desta família ficou conhecida devido à onda de solidariedade que alastrou por todo o país no sentido de apoiar o casal com as despesas de medicação. Apesar de ter sido dadora, Ana não recebeu quaisquer benefícios em termos de assistência social para além da baixa médica. O Estado não parece sensibilizado para essa situação. “Na altura, apenas com o ordenado do meu marido, teria sido muito complicado conseguirmos pagar todos os medicamentos”, recorda.

Com o passar do tempo, as ajudas foram rareando mas há novidades no seio familiar. Há um ano que o marido, Nuno, foi trabalhar para a indústria do ferro, no Luxemburgo. Em Junho, mãe e filho apanharam o avião, pela primeira vez, e passaram um mês em família. A experiência foi fantástica. “O David adorou andar de avião e perguntava-me imensas coisas”, conta, enquanto o pequeno faz a sesta depois de almoço.

Quem recebe um fígado tem que tomar, durante toda a vida, os chamados medicamentos “imunosupressores”, que evitam a rejeição do órgão. Por isso, apesar de parecer respirar saúde, David ingere, diariamente, quatro comprimidos, comparticipados pelo sistema de saúde. Um encargo mensal de 10 euros, um valor relativamente baixo, em relação ao que o casal era obrigado a despender em medicação após a operação. O medicamento mais caro que toma - cada caixa custa 200 euros - é fornecido gratuitamente pelo hospital. David chama-lhe “bombons” e não oferece resistência à rotina que sempre o acompanhou desde que nasceu.

De três em três meses vai a consultas no Hospital Pediátrico de Coimbra. O último grande susto foi a 30 de Dezembro de 2008, depois de David comer uma sopa de peixe com massa confeccionada pela mãe. “Ficou muito roxo e esmoreceu em seguida”, recorda Ana, que o levou de urgência para Coimbra. A médica atribuiu a recaída a uma reacção alérgica à comida. Teve alta a 5 de Janeiro. Feijão seco, marisco e fruta de conserva também não constam da ementa de David. Mãe e avó materna, sempre presente, sabem-no porque já verificaram a reacção a estes alimentos.

David Tiago prepara-se agora para frequentar o jardim-de-infância, perto de casa. “Fico contente de ele ir para a escola mas confesso que tenho medo que as outras crianças o magoem na barriga onde tem a costura”, confessa Ana que também faz parte desta história com final feliz. “Quando faço um esforço maior ou me enervo com alguma coisa no outro dia dói-me na parte onde me operaram. De resto faço uma vida perfeitamente normal”, aponta.

David nasceu de uma gestação de 40 semanas e 4 dias, vivida sem sobressaltos. Os sinais da doença surgiram duas semanas depois nascimento. O primeiro diagnóstico foi icterícia, muito comum nos recém-nascidos. Só mais tarde descobriram que se tratava de cirrose hepática. Para o menino se salvar teria que ser sujeito a um transplante de fígado. A mãe, assim que soube ser dadora compatível, não hesitou. Hoje, sente que valeu a pena cada minuto de sacrifício. Só tem pena que muitos que a apoiaram não telefonem, de vez em quando, a perguntar como está o seu filho. “Todo o dinheiro que deram para o David, cinco mil euros, está numa conta a juros. Nunca lhe mexemos e só o faremos em caso de necessidade extrema”, indica.

 

Desportos radicais com um coração emprestado

João Miguel Dias é um adolescente de 17 anos, que reside em Pontével, Cartaxo. Adora andar de skate, BTT e jogar voleibol, elegendo a disciplina de Educação Física como a sua preferida. Igual a tantos outros, não fora o facto de ter sido, de acordo com a mãe, a primeira criança em Portugal a ser submetida a um transplante cardíaco. Tinha apenas dois anos e três meses. Cinco horas de cirurgia, no dia 21 de Janeiro de 1994, no Hospital de Santa Cruz, em Oeiras.

Desde criança que João soube que o coração que tem é de outra criança, cuja identidade dos pais desconhece. Análises regulares ao sangue e a ingestão de oito comprimidos por dia fazem parte da sua rotina e nem quando era criança levantava problemas a estes cuidados redobrados. Tem que comer mais peixe que carne e não pode estar muito tempo ao sol. Pouco dado a estudos, João gostava, no futuro, de tirar um curso de electromecânica porque adora desmanchar os carros e ver do que são feitos.

A mãe, Maria Eugénia, recorda os momentos de aflição vividos após o parto, contrários a uma gravidez sem problemas e ecografias que nunca detectaram qualquer malformação. “Foi operado com uma semana e aos quatro meses fez o primeiro cateterismo (introdução de um pequeno tubo numa veia da perna ou braço) mas com um ano começou a fazer paragens cardíacas”, relata. O transplante cardíaco foi a solução que um médico encontrou na altura e que sossegou o coração de uma mãe que, também ele, vivia em sobressalto.

 

in O Mirante

publicado por portuga-coruche às 15:55
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