Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Os Mercados, esses Malvados!

Certamente já ouviu falar nos Mercados. Recentemente, o Ministro das Finanças definiu Setembro de 2013 como a altura do regresso aos Mercados. Mas quem são então os Mercados? Onde estão? Para que servem? Como funcionam? 

 

A dívida pública é a base do sistema monetarista em que assenta o capitalismo. A FED (Reserva Federal Americana) e a sua política de reservas fraccionadas é a principal responsável pela  existência de dívida. Basicamente começou-se a criar dívida a partir do… nada! O que está subjacente à criação da FED é tema que daria “pano para mangas”. O anterior PM referiu as dívidas como eternas.

 

Segundo ele, estas não são para pagar mas sim para gerir. Isto é verdade dentro de certos limites até porque praticamente todos os países têm dívida pública, mesmo os mais ricos. A questão é que quando se ultrapassam esses limites (normalmente acima de 60% do PIB) essa gestão torna-se inviável. Entra-se numa situação em que só se consegue satisfazer o serviço da dívida contraindo ainda mais dívida.

 

E assim entra-se numa espiral que aniquila qualquer crescimento económico, induzindo recessão e consequentemente mais desemprego e miséria por largos e vários anos. O país contrai dívida para… empobrecer! Esta é a razão pela qual Portugal não conseguirá regressar aos Mercados em 2013. Estes, cientes dessa realidade, não acreditam que o país tenha crescimento económico suficiente para cumprir com as suas obrigações. O pior é que a dívida externa de Portugal não se resume só à parte pública. Se lhe somarmos a parte privada esta então é das maiores do Mundo. Não há economia que resista a isso até porque há limites para a própria austeridade. 

 

Então para que serve esta austeridade? Para que Portugal possa continuar a sua escalada de endividamento? A resposta é simples: Portugal na altura em que solicitou ajuda à Troika não dispunha de qualquer outra alternativa. Entretanto o que irá suceder nos próximos tempos será algo do género: Antes de Setembro de 2013 Portugal vai negociar um novo resgate senão entrará em incumprimento. Em paralelo ou quiçá um pouco mais tarde, à semelhança do que aconteceu na Grécia, terá de haver uma renegociação da dívida que passará por um perdão parcial desta na ordem dos 50% (o chamado “hair-cut” correspondente à dívida que poderá ser classificada de odiosa), por um alargamento dos prazos de pagamento e pela descida das taxas de juro da dívida remanescente. Só assim é que Portugal se tornará viável dentro do Euro. A vantagem é que com isto Portugal será “obrigado”, por muito que isso custe à classe política, a efectuar todas as reformas estruturais de que carece. Para o bem ou para o mal, Portugal terá de passar a viver apenas de acordo com as suas possibilidades porque dificilmente, tal como a Grécia, terá condições para voltar aos Mercados em condições vantajosas, especialmente nas obrigações a 10 anos.

 

Os Mercados são todas as entidades que negoceiam no sistema financeiro e no mercado de capitais, sejam estas Bancos, Fundos Soberanos ou de Investimento e até investidores particulares. Os juros da dívida pública de um país são tanto mais altos quanto o seu risco de incumprimento (default). Mas por vezes esse risco é de tal ordem elevado que nem a ganância dos Mercados está disposta a correr. Excepto em certas situações nas quais algumas dessas entidades que compõem os Mercados se sentem “protegidas”. Estas ao verem que são “imunes” ao risco, graças ao caso BPN, passaram a ser destemidas para não dizer irresponsáveis na sua gula pelo lucro fácil. Os famigerados e malvados Mercados no caso grego incluem a banca… portuguesa! Segundo os dados da imprensa económica, em termos de peso no PIB, o sistema financeiro português é recordista em exposição à dívida grega – sete mil milhões de euros ou 4,2% do PIB (em segundo lugar nesta escala está a França com 2,1% do PIB (Francês) com 40 mil milhões de euros). 

 

Já ouviu falar num esquema Ponzi mais conhecido por esquema em pirâmide? Um esquema Ponzi é uma operação fraudulenta de investimento que envolve o pagamento de altos rendimentos aos investidores à custa do dinheiro pago pelos investidores que chegarem posteriormente, em vez da receita gerada por qualquer negócio real. O nome do esquema refere-se ao criminoso financeiro italo-americano Charles Ponzi (ou Carlo Ponzi).

 

Mas o que é que isso tem a ver com a nossa situação? Bem, qualquer crise tem a sua origem. O facto de muitos países terem ultrapassado o seu limite razoável de endividamento não aconteceu por acaso. O que aconteceu? Numa palavra: subprime. Consiste no crédito hipotecário concedido em condições de risco muito elevado, maximizado, multiplicado por mil e uma bolhas de especulação. Começou nos Estados Unidos em 2003, levou a uma  espectacular subida do preço das casas e foi até 2006, viajando numa tão intensa velocidade de novas e tão complexas aplicações financeiras que só mesmo os grandes especialistas as entendiam - com os reguladores atrás, muito atrás dessa “inovação” financeira. Com essa expansão global, e o seu excesso, percebeu-se que tudo estava assente numa coisa que não existia: o dinheiro não existia; o hipotecado não tinha dinheiro para pagar a hipoteca. A partir daí a enorme “bolha” rebentou e gerou-se um efeito dominó sobre a depreciação do valor das casas. 

 

Mas como é que tudo isto é global? Como é possível que o gesto de permitir o acesso a habitação a quem, noutras condições, nunca poderia ter casa própria se pode transformar neste monstro total? Foi um brasileiro, autor anónimo, a encontrar a melhor das explicações, num exemplo prosaico de linguagem rasa, recta e real. A história chama-se "O Boteco do Seu Biu" e reza assim: 

 

"O Seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça fiada aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender fiado, pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o valor extra que os clientes pagam pelo crédito).

 

O gerente do banco do Seu Biu, um ousado administrador, decide que as cadernetas de  calotes do bar constituem, afinal, um activo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o fiado dos bêbados sempre como garantia.

 

Uns seis executivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e transformam-nos em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrónimo financeiro que ninguém sabe exactamente o que quer dizer.

 

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas de calotes dos clientes do Seu Biu). Esses  derivativos são negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

 

Até que alguém descobre o inevitável: que a garrafa tem fundo e que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas.

 

A descoberta do vazio arrasta consigo os mercados de 73 países, a bolsa de mercados e futuros, todos os bancos, o ousado administrador e o pobre do Seu Biu, o primeiro a ir à falência".

 

Conclusão brasileira de humor crocante: "O que aconteceu? Toda a cadeia se f…".

 

Nada melhor para encerrar este tema dos Mercados do que um vídeo em que 2 humoristas britânicos explicam como estes funcionam com o bom humor que os caracteriza.

 

 

in Blog "Bicadinhas"

 

Só consegui encontrar a versão do vídeo legendado em Espanhol, mas, se forem ao blog Bicadinhas tem a versão legendada em Português.

O autor do Blog refere no fim que autoriza a divulgação ("Se o leitor gosta do blogue ou de algum texto em particular, não hesite em tomá-lo como seu e eventualmente até partilhá-lo. Este só fará sentido se chegar às pessoas.") mas depois, trancou a origem do vídeo, por isso não me foi possível reproduzir aqui.

publicado por portuga-coruche às 07:00
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