Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Joaquim Canejo

O carro andou 525 mil quilómetros a trabalhar para a reforma agrária

 
 
Um busto de Lenine testemunha a conversa. Joaquim Canejo é um homem do Couço, freguesia de Coruche, por várias vezes chamada (pelos fascistas, diz) de "Pequeno Moscovo". Nenhum outro partido ganha eleições. O Partido Comunista Português (PCP) continua de pedra e cal.

Jornal de Negócios  Online
negocios@negocios.pt
 
Um busto de Lenine testemunha a conversa. Joaquim Canejo é um homem do Couço, freguesia de Coruche, por várias vezes chamada (pelos fascistas, diz) de "Pequeno Moscovo". Nenhum outro partido ganha eleições. O Partido Comunista Português (PCP) continua de pedra e cal.

"Ainda tem de morrer mais uma série de velhos para eu poder ser presidente". A citação é atribuída por Joaquim Canejo a um candidato do PS (derrotado) à Junta de Freguesia do Couço. Mas para este militante, falta aos mais jovens a dureza da ditadura para terem o espírito de comunidade. Afinal é isso que o comunismo significa. Ri-se em reacção à pergunta se era do PCP. A sua história acaba por responder à dúvida. Joaquim Canejo trabalhou sempre no campo e, durante muitos anos, foi seareiro. Trabalhava de sol a sol. Ganhava-se 20 escudos por dia, durante seis dias por semana.

O 25 de Abril ouviu-o pelo rádio que levava para a seara. "Estivemos a apreciar aquilo tudo pelo rádio", conta, recordando como antes escondia o "Avante!" no meio dos queijos ou como albergava clandestinos em sua casa. O pós-25 de Abril acabou por o levar às lutas pelos direitos dos trabalhadores. Primeiro no Sindicato dos Operários Agrários, onde ajudou a inscrever cerca de oito mil trabalhadores, e depois no Comité da Reforma Agrária. A partir do Couço ajudou nas ocupações das terras. 

"Os grandes agrários começaram a vender o gado e a tirar as máquinas. Aí houve, então, a grande necessidade de deitar a mão à terra para se produzir". Explica a reforma agrária pela necessidade. As terras não estavam a produzir e os trabalhadores precisavam de emprego. Na altura de reversão, a situação, segundo Joaquim Canejo, era diferente. "Quando tomaram conta das terras [os proprietários], estava tudo a produzir". Aí resistiu-se. Foram forçados a sair das terras pela polícia. Joaquim Canejo fala de repressão na saída, mas de passividade nas ocupações em Coruche. Das suas recordações, que parecem frescas, sugere que a primeira ocupação no concelho foi a Herdade do Peso, entre as Brotas e o Ciborro.

"Foram os trabalhadores que ao verem-se lá desprezados vieram aqui ao Couço ter com a gente. Falou-se com a tropa e foi-se lá". Na terra só estava o feitor. "Torceu-se", mas nada havia a fazer. Outra memória leva-o à Herdade dos Pensais. "Estava completamente abandonada" e, por isso, "as senhoras ficaram contentes de a gente ter ocupado aquilo". "A gente foi lá, limpámos aquilo, pusemos a escola a trabalhar, e puséramos lá casais. Essas pessoas, dentro da herdade, foram as que mais produziram". Agora, "há anos que não produz". É com tristeza que diz ver tanta terra improdutiva. "Se sair daqui para fora, só encontra arames e caça".

As histórias vão-se desfiando como um rolo de linha. Joaquim Canejo pertenceu ao Comité da Reforma Agrária e era, muitas vezes, chamado para ajudar. "Era ali que iam discutir os seus problemas". Mas, ele, Canejo, "nunca estive a trabalhar em herdade nenhuma. Nem recebi dinheiro das herdades. O meu trabalho foi gratuito". Tinha uns dinheiritos guardados. À causa pôs, ainda, ao serviço o seu carro. "Andou 525 mil quilómetros a trabalhar para o sindicato e para a reforma agrária".

Durante a reforma agrária começou a nascer a Cooperativa "A Conquista do Povo", no Couço, onde ainda hoje dorme. "Durmo aqui dentro há 36 anos". Para impedir a "gatunagem" de roubar o que lá está dentro. Não tem medo? "Não tenho medo nenhum. Sempre vivi no campo, dormi muito tempo lá na charneca, ao relento". À Cooperativa - que chegou a ter dois mil sócios - dá todo o seu tempo. As obras começaram a 6 de Setembro de 76. "Toda a gente veio ajudar". Evoluiu-se "e chegou aqui a estar em grande". Tinha produção de carnes que a ASAE pôs fim. De resto, "vende-se tudo".

"O meu papel é ver isto a trabalhar". Não quer outro. "Fiz sempre muitas coisas pelo bem deste povo. Fiz o meu trabalho". Não quer glórias. Com humildade, diz que sempre tentou ajudar e "explicar às pessoas que era preciso produzir para colher". E sai para ir atender os cooperantes. O busto de Lenine, esse, continua a testemunhar uma vida dedicada causa.
 
In Jornal de Negócios
publicado por portuga-coruche às 11:06
link do post | comentar | favorito

.Citações Diárias

.Visitantes On-line

.Total de Visitas


Consultar Estatisticas

.Abril 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. De olhos bem abertos

. GNR apanha ladrões de bom...

. 85% da divida foi gerada ...

. Continuamos à Espera

. Orientação Pedestre - Cam...

. Dakar Desert Challenge ap...

. Coruche acolhe caravana d...

. DIA EUROPEU DO ENOTURISMO...

. Para quem ainda não perce...

. Gastronomia este Fim-de-S...

.últ. comentários

Aqui fica o site da Kikas:http://kikas-lasiesta.co...
esta mais que visto
Porque que ao inves de criticar vcs não fas...
A tua mãe devia ter-te abortado! Se ela ainda não ...
Fiquei muito triste com a Nestlé de quem sou "clie...
Todas as pessoas gostam de dar opiniões, o que não...
Parabéns pelo seu site, eu acho que isso ajuda um ...
Parabéns pelo seu blog ! E o mais importante , mui...
Very interesting and thanks for sharing all items ...
empresa acima referida esta neste momento com difi...

.arquivos

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

.tags

. abel matos santos

. acidente

. água

. águas do ribatejo

. almeirim

. apanhados

. aquecimento global

. assalto

. autarquia

. benavente

. biscainho

. blogosfera

. bombeiros

. burla

. câmara municipal de coruche

. carina

. cdu

. china

. ciência

. cigana

. ciganos

. clima

. climategate

. cobre

. comboio

. copenhaga

. cortiça

. coruche

. couço

. cp

. crianças

. crime

. criminalidade

. crise

. dai

. david megre

. desaparecida

. desaparecidos

. desemprego

. desporto

. dionísio mendes

. dívida

. douro

. droga

. economia

. edp

. educação

. emigração

. emprego

. energia

. ensino

. escola

. espanha

. etnia

. fajarda

. faleceu

. fascismo

. festas

. finanças

. fmi

. fome

. gnr

. humor

. imperialismo

. impostos

. insólito

. internet

. ipcc

. justiça

. ladrões

. lamarosa

. meteorologia

. mic

. miccoruche

. morte

. música

. phil jones

. pobreza

. política

. pontes

. procura-se

. racismo

. roubo

. santarém

. saúde

. segurança

. sociedade

. sub

. tempo

. ticmais

. toiros

. tourada

. touros

. trabalho

. tráfico

. tribunais

. video

. videos

. violência

. xenofobia

. todas as tags

.links

.Enviem Notícias e Comentários

CONTACTO

greenbit@sapo.pt

.pesquisar

 

.Outro Contador

blogs SAPO

.subscrever feeds